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Na noite da última Sexta-feira, reuniu-se o Conselho Nacional do CDS. Como é habitual, a reunião decorreu sem ser presenciada pela comunicação social. Este facto tem levado alguns miltantes (quer nela tenham estado presentes ou não) a sentirem-se livres de veicularem versões distorcidas do que se passou. Um bom exemplo de tais exercícos é o artigo do João Távora no i de ontem, que merece atenção por encapsular toda a estratégia e todos os mitos que o grupo decidiu criar, numa táctica de guerrilha política que, dada a desproporção entre a bravata e os resultados, teve tanto de pífio como de ridículo.

 

Quem lê o artigo e esteve no CN, sabe que nada do que é dito corresponde à verdade. Quem não esteve presente na reunião, pode no entanto pensar que o que se passou foi o seguinte: uns bravos militantes quiseram que o CDS esclarecesse o povo que é um partido contra todas as "causas fracturantes" e fez uma proposta nesse sentido; o grupo escreveu uma carta aos conselheiros nacionais e apresentou-a no CN; a reunião explodiu de gáudio com a proposta e aplaudiu-a como se não houvesse amanhã; posto isto, entra em acção o malvado presidente do partido, defendendo que o CDS se devia transformar num partido jacobino, no que foi acompanhado por uma série de militantes, dependentes do malvado presidente e que andariam a pedir na rua se não fossem os lugares políticos com que foram agraciados. Às três horas da madrugada de Sexta para Sábado, foi declarado o óbito do CDS, que havia sido substituído por um sucedâneo do Bloco de Esquerda. 

 

Os termos do artigo são falsos e insultuosos para os que no CN se pronunciaram e votaram contra a proposta (o título, então - "A Noite das Facas Longas" -, é inqualificável). Sou um deles.

 

Por princípio, acho incorrecto que se revelem e discutam em público os termos de reuniões à porta fechada. Abro uma excepção, que julgo justificada por quatro razões: grande parte dos factos já é pública; não fui eu que iniciei a discussão fora do CN; quem a iniciou distorceu a realidade para ferir a honra de um grupo no qual me incluo; uma vez que participei no debate de Sexta-feira, penso ter mais legitimidade para falar agora do que os que se mativeram então calados, pelos vistos a tirar notas para uma desforra póstuma em papel de jornal (como o João Távora).

 

Esta é a minha versão do que aconteceu:

 

Recentemente, o parlamento discutiu e votou propostas da esquerda relativas à procriação medicamente assistida e à possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo. Na PMA, foram a votação duas propostas - uma do Bloco de Esquerda, outra da JS. Os 24 deputados do CDS votaram contra a primeira e, na segunda, 3 abstiveram-se e um - o João Rebelo - votou a favor. As propostas do PS e PSD baixaram à comissão sem votação. Na adopção, 22 votaram contra, um absteve-se (o João Rebelo) e outro votou a favor (o Adolfo Mesquita Nunes).

 

Uma vez que nenhuma das matérias constava do programa eleitoral do CDS ou do programa de Governo, entendeu a direcção do CDS não impor aos deputados disciplina de voto em qualquer sentido. Porém, o grupo parlamentar recebeu da direcção uma orientação clara de votação (que num dos dois casos, pelo menos, se consubstanciou numa carta do presidente do partido).

 

[Tendo em conta o momento político em que decorreram as últimas eleições, a direcção do CDS sujeitou à aprovação do CN um programa eleitoral completamente concentrado nas questões relativas à gestão do período do resgate financeiro e ao crescimento económico. O CN aprovou tal estratégia de forma unânime (ou quase).

Quando foram convidados para constarem das listas de deputados, o Adolfo Mesquita Nunes e o João Rebelo deram conta ao presidente do CDS de que em algumas das matérias ditas "fracturantes" (o linguajar da esquerda a que se acostumou a direita que delas tanto gosta), caso fossem eleitos, poderiam votar em desacordo com a maioria do grupo parlamentar. De resto, as suas posições nessas questões são expressas e públicas há muito tempo. Como elas não figurariam do programa de governo, nenhum problema se suscitou].

 

Aqueles votos dissonantes do Adolfo e do João incomodaram alguns militantes, que começaram uma campanha insólita e meia descabelada para apregoarem que o CDS tinha sofrido uma alteração fundamental na sua história e uma hecatombe na sua matriz ideológica. O horror, o horror: em cada uma das votações 1 dos 24 deputados do CDS votou de forma divergente. Onde é que isto já se viu?! 

 

Catorze desses militantes (pensava que eram doze, mas o João Távora identifica catorze), que têm assento no CN, escreveram uma carta ao presidente do órgão, António Pires de Lima, expondo as suas razões e solicitando o agendamento de uma discussão sobre esse sismo doutrinário que ameaçava dilacerar as bases programáticas do CDS. Pires de Lima inscreveu o ponto na ordem de trabalhos, remetendo cópia da carta a todos os membros do CN.

 

Entretanto, a campanha passou para os jornais. O Público noticiou que a investida prometia "cavar divisões" no CDS. Os militantes passaram noites sem dormir, aterrorizados com a sangrenta batalha que se avizinhava.

 

Chegado o dito ponto da ordem de trabalhos, Pires de Lima convidou um dos signatários para apresentar a carta e dar início ao debate. O conselheiro Gonçalo Moita fez uma intervenção esclarecedora sobre o que move os 14 autores da missiva. Foi, à semelhança do que viria a ser o artigo do João Távora, um discurso repleto de superioridade moral e sentido de entitlement. Não teve grande pompa mas foi de uma gravidade que Churchill não ousaria utilizar em 1940. Enfim, era a finest hour do sr. conselheiro, há que desculpar estes excessos. O conteúdo foi absolutamente inusitado e roçou o insulto. Cavou divisões, sim, mas todas imaginárias: tentou colocar os signatários num pedestal axiológico e moral, apartados de todos os outros, reles relativistas que não merecem o partido. Foi uma manifestação desnecessária de arrogância cultural, social e intelectual. E incluiu - como incluem sempre as intervenções do grupo (veja-se o artigo do João Távora) - umas loas mais ou menos explícitas à alegada independência do grupo, que não se confunde com o rebanho de tachistas que tem de enfrentar (sempre o último reduto do argumentário das pretensas oposições sem material para contestação).  

 

Acima de tudo, tentou-se que a discussão se fizesse quanto a uma questão artificial: basicamente, saber se o CDS ainda era um partido contra o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc. (o leitor conhece o catálogo) - ou, mais genericamente, se o CDS ainda era um partido que defende a família. A intervenção terminou com a submissão a votação de uma proposta cujo conteúdo era o de impedir que, em qualquer momento no futuro - para todo o sempre -, algum deputado do CDS pudesse ter outro voto que não o voto desfavorável num conjunto genérico e largamente indefenido de matérias "fracturantes".

 

Esta proposta era, naturalmente, uma coisa inaceitável, que nada tinha a ver com o que espoletou a discussão (e que, de resto, muito me espanta que tenha sido pensada, redigida e subscrita por tantos juristas). Seria um salto ilógico consagrar para os militantes uma proibição proto-estatutária partindo da mera circunstância de o grupo parlamentar ter apresentado, em cada uma de duas das centenas de votações realizadas na legislatura, um voto isolado contrário ao da maioria. Ainda para mais num órgão sem poderes para tal. Ainda para mais uma medida assente numa formulação tão genérica, tão aberta, que a sua concretização prática seria nula. Ainda para mais com todos os problemas de democraticidade interna que a medida levantaria. Ainda para mais tendo em conta a tolice da ideia de se achar que as questões em causa podem ser discutidas em duas horas e sem ter em conta o concreto teor das medidas que se possam vir a discutir no Parlamento. 

 

No entanto, percebeu-se perfeitamente qual a estratégia dos autores da carta. Tratava-se de forçar uma votação que lhes permitisse fazer o teatro que está à vista: afirmar que o CDS mudou, que já não é o partido da fundação, e com isso tentar cair nas boas graças dos militantes, para efeitos de confrontos futuros. No fundo, uma tropelia que uma campanha para a mais infantil associação de estudantes não recusaria.

 

Pois bem: terminada a intervenção de Gonçalo Moita, abriu-se o debate. Terão falado - julgo - mais de 20 pessoas. Mais nenhum dos subscritores se inscreveu para defender a proposta. Nenhum. Falou Ribeiro e Castro (que não era subscritor da carta), mais para defender a sua violação da disciplina de voto numa questão de governo (tema que entretanto se misturara) do que propriamente para defender a carta. E falaram Gonçalo Moita (mais uma vez) e o Filipe Anacoeta Correia, ambos porém para encerrar o debate, sem acrescentar nenhum argumento ou refutar o que vinha sendo dito. Chegaram até a dizer, para justificar o deserto de inscrições do seus apoiantes, que tinham vindo ali para ouvir e não para falar. Como assim? Escrevem ao presidente do CN a solicitar o agendamento de uma discussão, apresentam uma proposta de vinculação dos deputados do CDS a uma orientação programática, e não querem justificar e defender as suas propostas? Pareceu-me uma atitude sobranceira, confesso, mas se calhar são pessoas mais talhadas para escreverem - ou para pedirem que se escreva - nos jornais. 

 

Seja como for, aquilo a que assisti foi a uma autêntica demolição intelectual das pemissas da carta e da proposta. Desde logo, denunciou-se a distorção do debate e recentrou-se o mesmo na questão fundamental. O que estava em causa não era, naturalmente, saber se o CDS tinha mudado ou qual a sua posição quanto a um determinado tipo de questões (presumir isso de um voto favorável, em 24 possíveis, depende de bastante ousadia argumentativa, parece-me), mas sim se o partido deve 1) impor disciplina de voto aos deputados em matérias ausentes do programa eleitoral e do programa de governo e 2) proceder a alguma repressão dos deputados ou alteração das regras internas só porque um deputado vota de modo diferente da maioria. 

 

Como é óbvio, o CN não teve dúvidas. E foi um dos momentos mais emocionantes dos meus 17 anos de filiação no CDS - cerca de centena e meia de militantes, ainda presentes às duas e meia da manhã, esmagadoramente bastante tradicionais nas suas convicções morais, religiosas e políticas, a afirmarem um princípio de liberdade de discussão, contra uma proposta que pretendia fechar para o futuro qualquer possibilidade de debate e pensamento. O CDS das liberdades derrotou o CDS da intolerância e isso deixou-me bastante feliz.  

 

Não me regozijo particularmente com a concludência dos números, mas é necessário sublinhar que, segundo a contagem da mesa do CN, votaram favoravelmente a proposta 10 conselheiros nacionais. Reparem: a carta tinha 14 subscritores, os quais conseguiram a proeza de obter menos 4 votos do que os que, à partida, estariam assegurados.

 

Sobre o teor das intervenções, não é possível descrevê-lo aqui em toda a sua diversidade. Posso apenas deixar um resumo da minha, a partir das notas que tirei para o efeito.

 

De acordo com a minha interpretação do que deve ser o estatuto dos deputados eleitos nas listas de um partido (que não é original, de resto), deve ser-lhes imposto um princípio de disciplina de voto em tudo o que conste do programa eleitoral com que o partido se apresentou a eleições – porque nesse programa está o conteúdo do seu mandato de representação, vigente enquanto vigorar o parlamento eleito – e/ou do programa de governo - porque a base da estabilidade governativa está na fidelidade a esse programa por parte dos deputados que o aprovaram. Julgo que este enquadramento é o que melhor compatibiliza a liberdade de consciência dos deputados com a estrutura institucional da democracia representativa (em que deve ser salvaguardado o funcionamento do mandato político que o povo confere ao parlamento e o sustento do mandato que este confere ao governo). 

 

Por outro lado, deve também ser reconhecido aos deputados um princípio de liberdade de voto em todas as restantes matérias.

 

As matérias cuja votação causou tanta perplexidade aos 14 subscritores da carta não constam do programa eleitoral do CDS. Não constam pelas razões que acima já referi. Não constam também do programa de governo. Sendo assim, parece-me óbvio que vigorou nas votações em causa o princípio que deveria efectivamente ter vigorado – o da liberdade de voto.

 

É claro que existem outras considerações que merecem atenção: diziam os subscritores que o voto desfavorável seria o único que respeitaria a matriz ideológica ou programática do CDS.

 

Quanto a isto, respondi o seguinte:

  1. Seguramente que, em complemento daqueles princípios, pode uma direcção partidária fazer uma apreciação mais fina, caso a caso. Devem ponderar-se, por exemplo e desde logo, a tal matriz do partido e aquela que será previsivelmente a sensibilidade maioritária do seu eleitorado (mais uma vez, em nome da salvaguarda do mandato popular). Mas, para que os princípios não sejam violados, eles só podem ser afastados respeitando uma regra de proporcionalidade: só o podem ser se numa determinada votação houver o risco de uma dissonância clara com a matriz do partido e a sensibilidade do seu eleitorado. Ora, não foi nada disso que se passou nas situações que tanto incomodaram os 14 conselheiros. Em ambas, verificou-se apenas um voto favorável – ao qual se juntou 1 abstenção num dos casos e 3 no outro. Não estavam pois verificadas as razões para uma imposição de disciplina de voto.
  1. O resultado da votação do grupo parlamentar do CDS é até está mais próximo do eleitorado do partido, globalmente considerado, do que julgam os 14 autores da carta. É preciso andar muito fora do mundo para não perceber que existem muitas pessoas que votam no CDS mas não partilham da posição maioritária no partido quanto a algumas questões de costumes ou direitos individuais. Por muito que custe a algumas pessoas, é possível concordar com o CDS em matérias suficientes para nele votar, sem que nessas matérias se incluam a PMA ou as noções de casamento e de família. Ou será que os cerca de 600.000 eleitores do CDS pensam todos exactamente da mesma forma?
  2. Não é sequer verdade que a matriz ideológica do CDS indique automática e obrigatoriamente um voto desfavorável nestas questões. Como todos os principais partidos da direita europeia em que se inspirou, o CDS teve sempre na sua matriz uma dimensão que coloca o enfoque das escolhas políticas na liberdade dos indivíduos e na importância dos compromissos que estes estabelecem livremente entre si. A partir dessa dimensão é possível, de facto, fazer um percurso intelectual que desemboque num apoio, por exemplo, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (ainda que eu ache que essa está longe de ser uma conclusão necessária). Nada disto é refutado pelas referências genéricas dos documentos fundacionais à dignidade da pessoa humana e ao personalismo, que não impõem soluções unívocas. Por exemplo, na questão da adopção, há quem defenda precisamente em nome da dignidade da pessoa humana que é melhor para uma criança ser adoptada por um casal de pessoas do mesmo sexo do que permanecer numa instituição. 

As preocupações dos subscritores da carta seriam, assim, desprovidas de sentido. A discussão suscitada teria apenas a utilidade de ser um pretexto para se discutir que partido o CDS deveria ser. Um partido aberto e plural, disponível para aceitar todas as grandes correntes da direita democrática, que se provoca a si próprio em nome da compreensão do mundo em que se insere, que se questiona como podem os seus valores abranger o maior número de portugueses possível? Ou um partido fechado, ensimesmado, remetido a uma única dimensão do seu pensamento, paralisado numa uniformidade artificial, desligado da realidade, que se abespinha sempre que um único dos seus membros afirma o contrário da maioria?

 

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comentários

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De Pedro Pestana Bastos a 03.04.2012 às 09:37

Amigo Francisco,

Obrigado pelo teu relato que está no mínimo incompleto. Diria mesmo surpreendentemente incompleto.

Falas tanto no que foi rejeitado e não tens uma linha para o o que foi aprovado.

Sim, foi aprovada uma proposta que determina que seja revisto o regulamento do GP com clarificação das matériass em que no GP existirá orientação de voto, disciplina de voto ou liberdade de voto.

Respeito que defendas que os deputados do CDS devem ter liberdade de voto na questões do aborto, da eutanásia, da PMA como método alternativo de procriação, nas barrigas de aluguer, da adoção de de crianças por duas pessoas do mesmo sexo etc. 

Eu considero que os deputados são também representantes dos partidos que têm programas conhecidos.

Quanto à preplexidade meu caro Francisco a mesma decorre do desconhecimento. Se existiam acordos particulares entre deputados e o Presidente do Partido, esses acordos deveriam ter sido conhecidos a priori, pelo CDS, por ocasião da aprovação das listas no conselho nacional. Teria sido tão fácil. O Presidente referia os acordos particulares com dois deputados, o assunto era debatido e as listas aprovadas. A diferença seria enorme pois já seriamos surpreendidos. Mas perguntas tu surpresa porquê?

Porque no passado o CDS nestas matérias falava a uma só voz. Mesmo em 2010, ainda com o Presidente do partido na AR foi votada e rejeitada uma proposta que visava a adopção por duas pessoas do mesmo sexo. Na altura houve declarações de voto mas não votos a favor. Mesmo o programa eleitoal nada referia sobre o tema. Mas afinal o que mudou ?

Claro que os partidos evoluem mas devem evoluir no debate. Fico contente que tenhas gostado de debater. Já agora reconhece que se não fosse o pedido dos 12 conselheiros (sim são 12), não terias podido debater e tudo se passava como se nada se tivesse passado.

Mas mais importante não teria sido aprovada a proposta que foi apresentada que consiste em definir as matérias em que há liberdade, orientação de voto ou disciplina.

Por mim podem chamar orientação de voto, disciplina de voto ou o que quiserem. Estou aliás convencido de que se apresentares uma proposta ao CN em que a partir de agora os deputados do CDS terão liberdade de voto na chamada "agenda dos costumes" a mesma também não será aprovada

Um abraço,

Pedro Pestana Bastos
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De hcl a 03.04.2012 às 09:52

"Um partido aberto e plural, disponível para aceitar todas as grandes correntes da direita democrática, que se provoca a si próprio em nome da compreensão do mundo em que se insere....."
Pode parecer bruto, mas, qual a diferença, objectiva, entre a frase anterior e:
"Não temos princípios só tendências, vamos vendo de que lado sopra o vento"?

Reconheço a lógica do discurso. Não há, objectivamente, relação causal entre opções económicas e opções sociais e provavelmente pessoas muito diferentes votaram CDS exclusivamente pelas opções económicas. Pergunto então:
O CDS esgota-se em opções sobre o funcionamento da economia (tirando a defesa daquilo que também é comum a PS e PSD)?

O que é que (DE FACTO NÃO DE CONVERSA) distingue o CDS, atendendo a que, o que apresentou como programa está muito longe daquilo que tem sido a actuação do governo (na actuação de governantes ligados ao CDS eu não noto nenhuma característica distinta)?
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De CSF a 03.04.2012 às 10:51

Nunca votei CDS porque nunca me ofereceu confiança, mas depois do que acabei de ler, é que nunca votarei CDS! Está instalado o relativismo neste partido! Em completo desacordo com a imagem que quiseram fazer passar - de acordo com as conveniências políticas de então -, como quando foi do referendo ao aborto. Sempre a mesma estratégia - constantemente negada - de caça ao voto para, depois, invocando legitimidade democrática, fazerem o que, do alto da sua sabedoria, entendem ser o melhor para o país.
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De Pedro Pestana Bastos a 03.04.2012 às 11:53

Amigo Francisco.

Só uma pergunta.

Em nome da liberdade de voto que defendes e do tal partido plural que referes posso depreender que quando ocorrer um novo referendo sobre a liberalização do aborto irás propor que o partido também não tenha posição ?

Abraço,

Pedro Pestana Bastos
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De MFM a 03.04.2012 às 12:24

A desonestidade intelectual dá nestes exemplos, em observar a gota no meio do oceano ou em realçar o deputado que votou favoravelmente em vez de reparar nos restantes 23 ou 22 deputados que votaram contra. Será que os mesmos que apregoam esta "vergonhosa" falta de unidade no grupo parlamentar, também reflectiram sobre a falta de unidade no seu próprio grupo? Pelos vistos, no meio de tanta sobranceria, os valores axiológicos tão esquecidos (dizem eles) não valeram sequer uma viagem a Leiria à totalidade dos subscritores...
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De Pedro a 03.04.2012 às 12:47

Desculpe mas falta de honestidade intelectual parece ter o seu comentário.

Onde é que os subscritores falaram de "vergonhosa falta de unidade do grupo parlamentar".
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De Joaquim a 03.04.2012 às 13:18

Este texto afinal só vem confirmar que o CDS tem por lá uns deputados, (vá-se lá saber porquê? será que rendem votos?), que nada têm a ver com o CDS, ou pelo menos com aquilo que o CDS afirma ser em relação aos valores que o fundaram.

Ou então é para poderem dizer que no CDS também têm uns deputados "muita" modernos e fracturantes!!!

É mais do mesmo!
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De Gonçalo Moita a 03.04.2012 às 13:32

Francisco Mendes da Silva,
Uma vez que me refere no seu artigo, agradeço-lhe a amabilidade que referir qual ou quais das minhas afirmações  pretenderam afirmar alguma "superioridade moral", qual ou quais delas roçaram o insulto e em que momento coloquei alguém numa posição de superioridade moral. Peço-lhe que o faça, mesmo que seja "de memória", sem absoluto rigor, para que possamos perceber todos de que é que estamos a falar. Grato, GMoita
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De José Maria Montenegro a 03.04.2012 às 13:39

Caro Francisco,

Não estive no CN da passada sexta-feira. Sei, todavia, que essa desvantagem deixou de o ser a partir da tua descrição factual - só a posso tomar por boa vindo de ti.

Creio, no entanto, que o embalo discursivo, quase irritado, da tua leitura te terá conduzido a alguns equívocos que, levados ao extremo, levar-nos-iam a resultados absurdos que, tenho a certeza, não subscreverias.

Em primeiro lugar, não posso estar mais de acordo contigo quando referes a falta de comparência dos subscritores da carta no momento de a defender (se em 20 pessoas que falaram, apenas o Gonçalo Moita e o Filipe Anacoreta intervieram em defesa da carta é manifestamente pouco e, estando mais subscritores presentes, não deixa de ser estranho). Depois, também te acompanho na crítica ao estilo (cuja descrição, repito, tomo por boa vindo de ti), que coloca de um lado os bons e do outro os maus, numa lógica de superioridade axiológica e moral, e sempre por apelo à oposição entre dependentes e tachistas (não confundir com «tatchistas» ...) face aos independentes (para mim, pelo contrário, só posso louvar quem aceita servir o partido e o país em nome do partido).

Bem, mas não podias ter razão em tudo. Não creio que tenhas de fazer um grande esforço para perceberes o alcance político da proposta que foi a votação. E aqui o termo «político» surge em toda a sua dimensão. Não posso, pois, aceitar que aches mesmo que o que estava em causa era simplesmente saber se o partido deve 1) impor disciplina de voto aos deputados em matérias ausentes do programa eleitoral e do programa de governo e 2) proceder a alguma repressão dos deputados ou alteração das regras internas só porque um deputado vota de modo diferente da maioria.

O programa eleitoral e do governo do CDS não precisa de afirmar a oposição à pena de morte, a defesa da liberdade religiosa, da separação de poderes ou da liberdade de expressão, para que, em matérias tão estruturantes como essas, seja imposta a disciplina de voto aos seus deputados. Imagina, por absurdo, que um deputado do CDS queria votar a favor da criminalização do infanticídio. Não lhe podia / devia ser imposta a disciplina de voto, mesmo não sendo matéria constante dos programas (eleitoral e de governo)?

Parece-me, assim, claro que pode ser imposta disciplina de voto em matérias que não constam dos ditos programas. Não é esse senão um critério de ponderação, que, no caso, me parece mais um argumento formal de circunstância.

A segunda questão, confesso, é para mim mais secundária. Não estou muito preocupado sobre se deve haver alguma repressão dos deputados ou alteração das regras internas só porque um deputado vota de modo diferente da maioria. Reconheço que é uma questão importante, mas não é ela que me preocupa (e julgo que, de fora, a verão também como secundária).

A questão de fundo, tal como a vejo, é eminentemente política e coloca-se no plano da identidade do CDS. É aqui que concordo com os subscritores. (cont.)
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De José Maria Montenegro a 03.04.2012 às 13:41

Pergunto: não se pode colocar a votação uma proposta tendente a clarificar se o CDS «é um partido que defende a família»?
Eu posso entender que é importante identificar o CDS com a agenda pro-life e family friendly. Tu podes entender, pelo contrário, que é importante que o CDS se aparta dessas questões e que, portanto, essas não sejam questões de identidade do partido. Vamos admitir, por exemplo, que para ti, o importante é que o CDS seja identificado como um partido anti-europeísta e contra o Euro (já foi tempo ...). Tu não concordas comigo e eu não concordo contigo. Eu apresento em CN uma proposta mais ou menos parecida com aquela que esteve em debate na sexta-feira. Por sua vez, tu apresentas uma proposta que sustenta a ideia de que os deputados do CDS se devem empenhar na saída da União Europeia e do Euro (seja lá no que isso se traduzir em concreto).
Qualquer leigo, à distância, vê duas iniciativas políticas, legítimas, que, cada uma no seu sentido, procuram influenciar o alinhamento político do partido. É verdade que o exemplo que te imputei (que inventei) já não serve uma vez que o Programa do Partido diz agora, outra vez, que o CDS é um partido europeísta e que advoga a participação da nossa moeda no Sistema Monetário Europeu (actualizando, defende a nossa adesão e permanência no Euro). Já agora, a proposta que esteve em discussão no CN de sexta-feira tem amplo arrimo no Programa do Partido(§1 do Ponto 1 do Capítulo II, §3 do Ponto 3 do Capítulo II, Ponto 1 do Capítulo III).
Finalmente, uma nota sobre a a ideia que sustentaste de que a proposta impediria que, em qualquer momento no futuro - para todo o sempre - algum deputado do CDS pudesse ter outro voto que não o voto desfavorável nas matérias em causa. Sabes bem que qualquer deliberação posterior poderia sempre alterar a opção do Partido. Como já aconteceu tantas e tantas vezes (até o nome do Partido já mudou). Percebo que mobilizes o argumento, na senda de reduzir ao absurdo a proposta que estava em votação, mas sabes bem que não colhe.
Em síntese, para mim, a questão está em saber se politicamente pode ou não ser apresentada uma proposta que determine a disciplina de voto num conjunto de questões de sociedade e de valores que emanam da democracia cristã.
Interessam-me pouco as questões de forma que suscitaste e com as quais até concordei.
Talvez valha a pena, em todos os Programas eleitorais, juntar como anexo o Programa do Partido dando-se como integralmente reproduzido para todos os efeitos (políticos, entenda-se).
Grande abraço
Zé Maria
 PS.1 Lembro-me de o Adolfo sublinhar que tinhamos de convencer o eleitorado que para votar no CDS não era preciso concordar com tudo o que o CDS defende. Eu estou de acordo com o Adolfo e acrescento. Para se ser dirigente ou deputado do CDS não é preciso estar de acordo com tudo. Mas devem-se respeitar as opções Programáticas do Partido. É assim legítimo que haja uns quantos que queiram clarificar que matérias são essas. Sujeitando-se, como é óbvio, à vontade da maioria dos militantes.
PS.2 Na proposta não vi um documento jurídico. Não era. Era simplesmente político. Era nesse plano que deveria ser avaliado.

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