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Alguma esquerda e a democracia

por Nuno Gouveia, em 09.04.12

O país vive num ambiente de uma estranha acalmia, mas perigoso pela retórica que se tem vindo a instalar na opinião pública. Nos media, nos blogues ou nas redes sociais lêem-se frequentemente apelos subliminares à violência, a golpes de estado ou à revolta contra o governo. E já não são apenas os radicais do costume, mas pessoas com responsabilidades, seja em partidos políticos, nas universidades ou em meios de comunicação social. Olha-se para as cenas de violência que irrompem na vizinha Espanha ou na Grécia e nota-se um desalento por essas situações não se repetirem em Portugal.  “Ai, nós gostamos mesmo de levar e calar” e lengas-lengas semelhantes, repetem estes novos desalinhados da democracia e do estado de direito. Otelo apela a um golpe militar e antidemocrático e estas pessoas calam-se, num silêncio estridente mas comprometedor. Vários militantes e pessoas afectas ao PS, até Junho do ano passado apoiantes da austeridade, clamam agora contra a ditadura da União Europeia e apelam à revolta nas ruas. E logo estes, que sempre estiveram calados perante a austeridade do governo anterior e contra as manifestações pacíficas de milhares de portugueses contra o governo socialista. As pessoas têm todo o direito de manifestaram-se contra o actual governo, e até ao momento a esmagadora maioria dos muitos milhares de pessoas que se têm exprimido nas ruas portuguesas têm-no feito com um notável civismo. Mas é intolerável a retórica subliminar de apelo à violência que tem vindo a ser cozinhada por alguns à esquerda. A minha dúvida: será que esta oposição à democracia é apenas conjuntural, nomeadamente pela esquerda estar na oposição, ou é uma manifestação mais profunda contra o nosso sistema democrático? Sinceramente não sei responder a esta questão, mas gostava de ver os responsáveis do PS a criticarem com mais veemência esta perigosa corrente de opinião que tem ganho adeptos em Portugal. Já dos restantes partidos nada espero.