Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O grande feito de Obama

por Nuno Gouveia, em 04.05.12

A eliminação de Osama Bin Laden tem sido promovida como um dos maiores feitos da administração Obama. A sua campanha não o tem deixado de recordar nestas últimas semanas que se comemorou o primeiro aniversário da morte do terrorista saudita. Sem sequer querer imaginar o que se diria por aí se fosse George W. Bush a gabar-se de tal feito*, interessa também saber como os Estados Unidos conseguiram detectar e eliminar o líder da Al-Qaeda. 

 

Jose Rodrigues, antigo director de operações clandestinas da CIA, escreveu esta semana um artigo no Washington Post onde atribuiu grande importância ao trabalho efectuado durante a Administração Bush para a localização de Bin Laden. Segundo este operacional da CIA, a captura ou morte de Bin Laden sempre foi a prioridade de topo dos serviços de inteligência americanos. Rodrigues descreve que em 2004 capturaram um terrorista que tentava comunicar com Abu Musab Al-Zarqawi, o líder da Al-Qaeda no Iraque, e que posteriormente foi aprisionado num dos famosos black sites da CIA. Depois de submetido a técnicas de interrogação aprovadas pelo Departamento de Justiça, o terrorista tornou-se cooperante e contou-lhes que Bin Laden tinha desistido de comunicar via telefone, rádio ou Internet e dependia somente de um mensageiro, tendo também fornecido o pseudónimo dele. A partir dessa data a CIA ficou com a certeza que já não era Bin Laden que coordenava as acções regulares da Al-Qaeda, pois tal seria impossível através de um mero mensageiro. Com o conhecimento do nome pseudónimo, a partir daí a CIA foi pressionando outros detidos da organização terrorista, até chegarem a Khalid Sheik Mohammed, um dos líderes de topo que estava detido em Guantanamo, e que  terá confirmado a veracidade da história. Depois disso, a CIA conseguiu descobrir o nome verdadeiro do mensageiro de Bin Laden, e partir para uma caça ao homem, até o conseguirem localizar. Seguiu-se uma longa operação de vigilância para descobrir o local onde se escondia o líder da Al-Qaeda, que culminou na operação dos Navy Seals a 1 de Maio de 2011.

 

Mérito? Da CIA, e aqui devemos incluir todos métodos utilizados (concorde-se ou não com eles), da Administração Bush que liderou a caça ao homem, dos Navy Seals que conduziram a operação final e do Presidente Obama que tomou uma decisão mais complicada do que parece. Em primeiro lugar, porque tudo poderia ter corrido mal, repetindo-se o fiasco da operação “Eagle Claw” de Jimmy Carter. E depois porque a outra opção em cima da mesa, defendida pelo impagável Joe Biden, era claramente insuficiente. Biden e outros defendiam que se devia bombardear e destruir o complexo, o que teria como consequência directa o desaparecimento para sempre de provas que Bin Laden alguma vez tivesse estado lá. Obama tem mérito na morte de Bin Laden, mas não lhe ficava mal dividir os créditos por outras partes.

 

* a propósito, nas presidenciais de 2004, Bush raramente utilizou em campanha a captura de Sadam Hussein, talvez o maior arqui-inimigo dos Estados Unidos do pós guerra fria, depois de Bin Laden.