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O tempo

por Nuno Pombo, em 24.05.12

Não costumo fazê-lo, mas vou aproveitar um tempinho para expor alguma intimidade. Valorizo o tempo. Por isso, também por isso, gosto de antiguidades. Gosto de olhar para as coisas e sentir que o tempo passou por elas. Que passou a fazer parte delas. Que essas coisas, depois do tempo se enamorar delas, sendo iguais, passaram a ser diferentes. Outras coisas. E o tempo interfere no valor das coisas, o que parece ter escapado às guturais teorias marxianas.

 

Já passou tanto tempo, que posso contar uma história que me contaram a mim. Vendo-a pelo preço que comprei. Dizia-se que eram impressionantes os rascunhos da autoria do Doutor Salazar. Limpíssimos. Sem rasuras ou marcas de hesitação. Limpos e escorreitos. Frutos de uma mente bem organizada, pensava-se. Eram assim, impecáveis, porque saíam da pena de um génio. Eram assim, irrepreensíveis, porque brotavam do aparo de uma inteligência superior. Não. Nada disso. O próprio o confessou. Os seus rascunhos eram assim, imaculados, porque ele não aderira à esferográfica ou à tinta permanente. Ele não dispensava o tinteiro. E o que ele queria dizer estava ali, no tinteiro, à espera da sua pena e do seu aparo. Letras, palavras, frases inteiras, ali, em estado líquido. E o Doutor Salazar lá ia bem escrevendo o que pretendia rascunhar, beneficiando da viagem que a sua mão fazia entre o papel e o tinteiro. Eram segundos, poucos, que evitavam o erro, a imprudência, a precipitação. 

 

O tempo. Hoje, na era do email e da internet, é muito mais fácil zangarmo-nos uns com os outros do que na do carteiro. Muitas foram as cartas que se rasgaram ou queimaram antes de chegarem onde não deviam. Hoje, uma guerra mundial está à distância de um clique. Graças a Deus, os chefes de Estado ainda não se correspondem por email, acho eu. E não dão grande importância ao facebook. Só o Cavaco é que dá, espero eu. O tempo faz bem. 

 

Ao Jacinto e ao Samuel, de quem sou (com muito gosto) amigo.