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Preto ou branco

por Jacinto Bettencourt, em 04.09.12

Para certa gente – mais que ignorante, desonesta – a História implica um juízo e este juízo ou é preto ou é branco. Tomado o poder (leia-se o Ministério da Educação) nos últimos 20 ou 30 anos, esta gente fez o mesmo que todas as ditaduras e regimes autocráticos anteriores – refez a História recorrendo, quando necessário, à omissão ou ao engano. Ainda me recordo de uma «História de Portugal em Banda Desenhada» que ilustrava uma Maria da Fonte apresentando orgulhosamente uma bandeira liberal – a bandeira do regime contra o qual a mesma Maria da Fonte e o movimento da Patuleia se haviam erguido. Recordo, também, longas discussões com um extraordinário professor de História do Colégio Moderno que, cumprindo o programa que lhe haviam passado para as mãos, se recusou – até que, humildemente, cedeu às evidências, como é próprio dos grandes professores – a incluir D. Miguel entre o elenco dos reis de Portugal, não obstante o infante ter sido legitimado pelas cortes – contrariamente ao seu irmão mais velho, D. Pedro IV, que havia perdido o direito ao trono de Portugal ao declarar a independência do Brasil e ao aceitar a chefia de Estado de outro país. Ironicamente, se atendermos às leis do Reino, o cognome de usurpador foi atribuído ao irmão errado – e o facto de isto ter acontecido é, por si próprio, digno de interesse e de reflexão, bastando para tal que nos sejam dados os factos habitualmente omitidos. Ora, nada disto acontece por acaso, antes entronca numa longa sucessão de manipulações propositadas de que ainda há pouco tempo nos deu testemunho a jornalista Fernanda Câncio quando colou, em artigo no Diário de Notícias, a primeira república à liberdade de imprensa (quando foi a primeira república, e não a monarquia constitucional que a precedeu, quem fez desta liberdade sua inimiga). Claro que a questão miguelista não é já relevante e que não passa pela cabeça de uma pessoa razoável e, sobretudo, prática – seja ela monárquica ou não – defender o rei D. Miguel dos actos vergonhosos de um Conde de Basto, por exemplo. Basta-me, aliás, a mera recordação de uma guerra civil que virou irmãos contra irmãos para compreender que não posso levianamente tomar posição sobre uma matéria relativamente à qual os próprios partidos em contenda, se ainda fosse tempo disso, teriam muito a lamentar. Mas as pessoas decentes, felizmente uma maioria, quando pegam em coisas tão sérias e graves sobre as quais não faz sentido assumir uma posição pessoal, e muito menos de "esquerda" ou "direita", fazem por ser objectivas – como Rui Ramos. E a objectividade choca e fere e nisto previne juízos e condenações categóricas sobre pessoas e episódios, da mesma forma que nos poupa ao ridículo e possibilita que, por exemplo, um António Barreto, insuspeito homem de esquerda, possa constatar, com alguma curiosidade, que o Estado Social é uma realidade que, andando frequentemente na boca de Marcelo Caetano, em Portugal nasceu, estatisticamente, de medidas tomadas entre 1970-1974. Já as outras pessoas, as que simplisticamente remetem a personagem de D. Miguel para a categoria de «os maiores facínoras da nossa história» visando, com isso, atingir na sua credibilidade um historiador que deu mais do que provas de independência e firmeza científicas, não se eximem de manipular a História e os outros, tentando fazer de todos nós e à custa de uma narrativa oficial leviana e falsa um país de gente estúpida. E gente estúpida devemos ser, de facto, pois permitimos que esta cambada continue impunemente a fazer o que faz.


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