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Pergunta-se primeiro e investiga-se depois

por Nuno Gouveia, em 23.12.12

A crise dos media em todo o seu esplendor. Não será caso único, mas é talvez o caso mais grave de que me recordo, e que envolve grande parte dos media portugueses. Ávidos de publicarem informação que esteja de acordo com a sua própria narrativa, construída ao longo de editoriais ou de peças mais ou menos politicamente orientadas, embarcam facilmente em qualquer teoria, seja ela esburacada ou não, para fortalecer a sua agenda. Quantas vezes não lemos opiniões nos media, em assuntos que dominamos, que passam completamente ao lado da questão? Eu como não sou especialista neste assunto em particular, fui lendo as tais notícias sobre o responsável da ONU que defendia a tal renegociação da dívida com naturalidade. Afinal de contas, vários colunistas e políticos alinhados à esquerda têm defendido o mesmo. E, como sabemos, as pessoas gostam de se associar alguém com reputação para defender as suas ideias. Neste caso seria um poderoso observatório da ONU e um reputado economista, e por isso, andava meio mundo mediático a citar o especialista. 

 

O que interessa: é uma vergonha que órgãos de comunicação social de referência tenham oferecido palco mediático a este senhor durante uma semana sem investigá-lo minimamente. Desde a entrevista ao Expresso na edição da semana passada, que, recordo, teve direito a destaque na primeira página do caderno de economia e duas páginas no interior, passeou-se pelos media como um grande especialista sobre a dívida portuguesa. Já antes tinha aparecido nos media, nomeadamente nesta peça de 30 de Novembro da RTP. A reboque deste senhor, a oposição, incluindo colunistas alinhados como o Nicolau Santos e tantos outros, utilizaram as doutas opiniões do "especialista da ONU" para criticarem o governo.

 

E agora? O ciclo noticioso é frenético, e basta aparecer um órgão a citar um charlatão para todos os outros irem atrás, sem pararem um minuto para pensar e investigar. Talvez tenha sido isso que aconteceu, mas era importante que os responsáveis editoriais assumissem as suas responsabilidades. Como é que ele apareceu? Porque lhe deram voz? Convida-se assim pessoas para intervir no palco mediático, apenas porque alimentam a narrativa preferida? Não se pergunta a ninguém ou recorre-se o Google para verificar se o sujeito tem a mínima credibilidade para participar num dos programas mais respeitados da televisão portuguesa? Um momento negro para a imprensa portuguesa. 

 

Quem também não sai muito bem desta história é o governo. Um gabinete de comunicação minimamente eficaz (nem precisaria de o ser muito) teria, logo após a sua primeira intervenção pública, investigado e desmascarado o charlatão. A menos que quisessem que o famoso "economista" da ONU tivesse palco mediático, para depois todos os que o citaram caíssem nesta situação absolutamente patética. Ou seja, teria sido uma forma maquiavélica de ridicularizar a oposição e os media.