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Momento umbiguista

por Francisco Mendes da Silva, em 22.05.07

“It is not the strongest of the species that survive, nor the most intelligent, but the one most responsive to change”. Charles Darwin 
 

Os aziagos tempos recentes do CDS têm fornecido material abundante para o comentário político mais catastrofista ou espirituoso. Nada contra. O tremendismo trágico é uma das chaves da portugalidade e o cinismo inteligente é sinal de polimento cultural. O que, porém, me parece menos civilizado é que o conjunto das abordagens ao tema se fique por esses exercícios de estilo inconsequentes, meramente proclamatórios da inviabilidade do partido ou do carácter dos envolvidos – num vazio intelectual que, diga-se, é muitas vezes partilhado pelas opiniões redondas e fúteis de muitos dos protagonistas.

Um dos temas com pior fama mas que mereceria melhor atenção é o da mudança e da reinterpretação ideológica. Em Portugal, nenhum político pode mudar de ideias, reenquadrar as suas convicções em face de uma nova realidade ou sequer falar de assuntos de que nunca antes falou sem ser imediata e solenemente considerado um oportunista e um mercantilista eleitoral. Talvez se trate de um tique desse portugalzinho remanescente, avesso ao confronto de ideias e ainda desconfortável na barafunda democrática. Seja como for, qual seria verdadeiramente a alternativa? Que os partidos fossem fechando portas e sendo por outros sucedidos à medida da sua obsolescência (o que traria uma instabilidade insuportável ao regime)? Ou que estes se mantivessem eternamente iguais ao que eram no momento da sua fundação, absolutamente alheios ao desenvolvimento sociológico? Nem o CDS, nem o PSD ou o PS permanecem ideologicamente idênticos ao que foram em 1974. Mesmo o PCP, na sua férrea e quase secular “coerência”, e o Bloco, na sua jovem existência, não são exactamente aquilo que eram na origem. E isso é saudável. Edmund Burke, que foi o mais eloquente dos cépticos (e se quisermos a citação de um grande conservador, para atenuar a pouco ortodoxa da epígrafe), teve ainda assim uma frase lapidar sobre a inevitabilidade e bondade da mudança: “um estado sem os meios para alguma mudança é um estado sem os meios para a sua conservação”. Pensemos nos principais partidos das mais antigas democracias e na diferença que há entre a indigência do discurso pátrio e a profunda tradição de análise histórica exercida naqueles países (pensemos, nomeadamente, na forma desempoeirada e profícua com que actualmente se discutem – até pelas próprias cúpulas partidárias - as diversas tradições do Partido Republicano americano a propósito dos vários candidatos às próximas eleições primárias e a síntese moderna que David Cameron diz querer fazer da história do Partido Conservador britânico, a qual não encaixa exactamente em nenhum dos grandes momentos dos Tories, de Disraeli e Salisbury a Churchill e Thatcher). Nas sociedades modernas, imensamente abertas e plurais, os partidos nucleares mantém a vitalidade na exacta medida em que conseguem interpretar os seus valores à luz do constante e cruel devir do mundo. Se continuarem, arrogantes e rezingões, à espera que o mundo a eles se adapte, mais não serão que meras curiosidades de museu.  

É notório que o CDS tem hoje um problema de atracção eleitoral e que um partido sem a vocação “catch all” do PS e do PSD não resolve esse problema sem um programa claro e distintivo. Daí que este momento umbiguista devesse igualmente servir para que se indagasse se os seus princípios servem a solução dos problemas do país e qual, para o efeito, a melhor conformação dos mesmos.

Julgo, a este propósito, que ao CDS se oferece um interessante alinhamento entre 1) os problemas circunstanciais do país, 2) o seu corpo doutrinário e 3) o mercado eleitoral.

As razões das dificuldades de Portugal são conhecidas e não vale a pena perder muito tempo com diagnósticos repisados. Atrasámo-nos na adaptação do nosso modelo de desenvolvimento à globalização e dispomos hoje de um estado largamente alheio às exigências da competitividade internacional, com uma influência perversa em quase tudo (o muito) em que toca. O resultado é a ruína dos dois mundos – o liberal e o colectivista: uma economia sem fôlego, o investimento em busca de outros abrigos, uma voragem fiscal obscena, um desemprego sem freio nos menos e nos mais qualificados e a deterioração dos serviços (alguns teimosamente) públicos. Nenhum partido atento pode deixar de abordar esta situação e, por muito que certas ideias reformistas sejam, à esquerda e à direita, desmerecidas como economicismos insensíveis e atávicos, a verdade é que não há direitos laborais, diversidade cultural, progressismo ambiental, valores familiares ou caridade cristã que resistam à penúria.

Ora, se é opinião corrente que o país necessita de uma injecção de liberdade, individualismo, responsabilidade e subsidiariedade, então o CDS deve assumir as suas responsabilidades de único partido que, desde 1974 – certamente com diferentes intensidades -, se apresentou sempre contra o paternalismo estatista que constitui o nosso iníquo modelo (constitucional) de desenvolvimento.

Em 2007, a utilidade e sucesso do CDS medir-se-ão pela capacidade de este, com base na sua própria experiência e acervo ideológico, formular um discurso para aqueles que o possam compreender e amplificar, aqueles que lhe possam trazer influência e visibilidade, substância e inovação. Pela capacidade de falar para os jovens ambiciosos e para as classes médias empreendedoras, mas também para os mais desprotegidos no definhamento económico. De falar de liberdade e responsabilidade nas profissões, na competitividade empresarial, na criação de emprego, na disposição do rendimento e na poupança. De ser politicamente indiferente nos costumes que não ultrapassam a esfera individual e de perceber que o interlocutor não é já a mole comicieira das décadas passadas, mas a geração mais cosmopolita e academicamente preparada que Portugal produziu, habituada ao estudo, ao reconhecimento do mérito, à informação e opinião livres dos blogues, à forma estruturada de pensar as políticas dos “think tanks” - uma geração que seguramente apreciará um líder articulado, determinado e carismático, mas que o preferirá com uma narrativa coerente do que com uma navegação casuística e à vista.


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De Gabriel Silva a 23.05.2007 às 10:15

Caro Francisco,
Aplaudi e aplaudo o esforço e abertura demonstradas para se criar no seio do PP um espaço para a defesa de politicas e principios ideologicamente liberais.
Concordo com o teu texto no que diz respeito á forma de vencer o imobilismo.

Mas também não se pode partir já para a criação de novos mitos, como este: o «único partido que, desde 1974 – certamente com diferentes intensidades -, se apresentou sempre contra o paternalismo estatista»

Não vou recuar anos, não sequer recuar à sua última passagem pelo governo, tempos abundantes de defesa acérrima do mais seródio paternalismo estatista. Basta-me ficar pelas últimas semanas e os constantes apelos a «mais apoio para os agricultores portugueses», ou defesa da continuação de um canal público de televisão. Enfim..... As coisas hão-de mudar, mas tem de se dar tempo ao tempo.

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