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A mim diverte-me mais quem, confessando-se amante de uma modalidade, escamoteia a sua realidade e os objectivos que a selecção respectiva pode alcançar. Dá-me mesmo vontade de rir que se confunda patrioteirismo com reconhecimento pelo esforço e entrega alheios. E a sobranceria trocista com que se fala de quem se comove quando representa o seu país pela primeira vez no terceiro maior evento desportivo do mundo.
Não sei quem ama mais, jogou mais tempo ou conhece melhor as regras do rugby e isso também não me interessa.
Factos são factos. E é um facto que é a primeira vez que uma selecção portuguesa de rugby está na fase final de um campeonato do mundo. E facto é, também, que os escoceses não deram nenhum baile à equipa portuguesa. Ela bateu-se com dignidade com as armas que tinha. Nunca virou a cara à luta contra uma equipa com experiência, técnica e um potencial muito superior. É pouco? Não me parece. Houve resultados bem mais desnivelados neste mundial entre equipas de valia teoricamente mais próxima.
Gostei de ver jogar os Estados Unidos contra a Inglaterra, a Namíbia contra a Irlanda, Samoa contra a África do Sul e o Canadá contra o País de Gales e nenhum ganhou. E, comigo, grande parte do público que esteve nos estádios. Uns burros de uns patriotas, todos eles. Uns obnubilados pelo marketing, é o que é.

Felizmente que há uns lúcidos cidadão do mundo que não se deixam impressionar e que os devolvem à sanidade enquanto os insultam.

Recordo-me de muitas provas desportivas em que atletas menos dotados tecnicamente ou em inferioridade física persistiram em acabá-las apesar do fosso que os separava dos primeiros e da posição infinitésima que acabariam por ocupar. Não me rio deles. Nem lhes chamo idiotas por não terem desistido. Nem considero ser patriotismo bacoco louvar o seu esforço e aplaudir o seu espírito de sacrifício. Patético é dizer que quem não ganha não serve e que quem elogia ou é ignorante ou é estúpido ou faz o acumulado.
O hóquei em patins é mesmo um excelente exemplo. Aqueles a quem Portugal dantes ganhava por mais de 20 a zero hoje chegam para nós. Mas começaram por levar 20 a zero. Na altura dos 20 a zero também ninguém via os resultados e ninguém se orgulhava das cabazadas que os "rapazes" levavam. Éramos os “All Blacks” da modalidade e no último mundial levámos uma tareia de umas “Geórgias” quaisquer.
Misturar desporto com a obsessão dos resultados é negar a sua própria natureza e fingir que todos partem em igualdade de circunstâncias. Não partem.
Mais risível do que justificar as derrotas previsíveis é o cinismo de achar que tudo o que não é convertível em pontos é desprezível.
As Amélias não ganharam nem se esforçaram. E, para quem gosta tanto de resultados, com o talento e as condições que têm, tinham a obrigação de, pelo menos, ganhar. Estes só não ganharam. Eu prefiro os últimos. Gostos.