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Ele que venha

por Henrique Burnay, em 17.09.07
Todos os anos os dirigentes europeus reúnem-se com dezenas de facínoras, bandidos e meros patifes, pela simples razão de que uma larga parte dos dirigentes mundiais são, exactamente, facínoras, bandidos ou meros patifes. Por isso mesmo, a discussão sobre a vinda ou não de Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe, a Lisboa, para participar na cimeira UE-África, parece um pouco bizarra. Apesar de tudo, há mais estupores no Mundo, particularmente em África.
África é o continente miseravelmente rico. Entre a riqueza das matérias-primas existentes e a miséria do povo há muito mais explicações do que as que se limitam a culpar a colonização, o homem branco e, em geral, o passado. Por outro lado, a “Europa”, que se orgulha de ser o maior dador mundial de ajuda, tem de fazer as contas e ver se essa ajuda produz os resultados que se desejam ou se, pelo contrário, agrava as condições de miséria.  
Em Julho, nos encontros do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, Elisabete Azevedo, uma académica especialista em assuntos africanos, explicava que “a ajuda internacional tem sido um problema para África”. Mesmo sabendo-se que há hoje muito mais democracias no continente africano do que há vinte anos, frequentemente “a ajuda internacional corre o risco de estar a financiar o partido maioritário que, na maioria das vezes, representa 60% ou 70% dos votos”. O que é um excesso muito pouco democrático, como se calcula, com as consequências que se imaginam.
Antes que seja tarde – antes que, por exemplo, a cooperação chinesa se imponha e imponha tudo menos a preferência pelo respeito dos Direitos Humanos – é necessário investir na promoção da democracia em África e do comércio com África. Essa devia ser a ideia central da cooperação europeia com estes países. Tanto para o bem dos africanos como para o nosso.
Se Mugabe entra ou não na cimeira é quase irrelevante, o que interessa é saber o que sai de lá: mais do mesmo ou uma nova estratégia? Sobre isso fala-se pouco.   

Publicado no MEIA HORA, hoje.