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Simão e a ternura da infância*

por Sofia Bragança Buchholz, em 30.11.09

Personagens:

• Simão, 9 anos
• Eu
 
Cenário:
O Simão ia ter um teste de Estudo do Meio. Fui dar com ele deitado no sofá do quarto dos brinquedos, com o seu livro na mão, a estudar. Falava em voz alta, explicava o que era a Península Ibérica, contava que povos a haviam invadido, como havia sido formado o Condado Portucalense. Lia pausadamente, dava ênfase aos acontecimentos mais importantes, e, no fim de cada tema, resumia a matéria por palavras suas. Ao seu lado estava sentado o Riscas, o seu tigre de peluche, para quem, frequentemente, se voltava e perguntava didacticamente, como um professor empenhado:
 
Acção:
– Percebeste?
 

 

* ou “E quem é que pensava que só o Calvin tinha um amigo tigre?”
 

Simão, o Aprendiz de Intelectual

por Sofia Bragança Buchholz, em 04.11.09

Personagens:
• Simão, 9 anos
• Eu

Cenário:
Recomeçaram as aulas de música. Ao fim da tarde, vejo o Simão entrar em casa, cabisbaixo, [surpreendentemente] pouco falador, depois da primeira lição de piano deste ano.
Estranhando, pergunto-lhe:

Acção:
– A aula correu bem?
– Sim, correu – responde desanimado.
– O que é que estiveram a fazer? – Interrogo para tentar entender o motivo de tal desmotivação.
– Tivemos de tocar uma música para a professora perceber o que ainda sabemos. – E, depois, como se aquilo o estivesse, ali, a entalar, acrescenta: – Tenho uma colega nova. Russa.
Eu repito entusiasmada:
– Tens uma colega nova russa???! – E, curiosa, quero saber: – E o que é que vocês tocaram?
Ele responde resignado:
– Eu toquei o Balão do João. Ela... – suspira profundamente – tocou Bach.

 

O Simão chama à CDU...

por Sofia Bragança Buchholz, em 11.10.09

o partido Centenas Dezenas e Unidades.

 

Simão, e o outro lado da Força. Ou não.

por Sofia Bragança Buchholz, em 01.10.09

Personagens:

• Simão, 8 anos
• Eu

 
Cenário:
Eu, uma Vader convicta aqui da Armada, tenho uma confissão [séria] a fazer-vos: nunca vi a “Guerra das Estrelas”.
Ontem, ao reparar, pousados na mesa do quarto dos brinquedos, em dois livros sobre o assunto, resolvo pedir ao Simão um breve e resumido – pensava eu – esclarecimento que me elucide de uma vez por todas.
Durante uma explicação longa e pormenorizada, repleta de uma catrefada de personagens horrendos e sinistros que jamais serei capaz de memorizar e que se renovam ou multiplicam a cada novo filme, eis que surge um miudinho loirinho, de ar inocente, que o meu sobrinho me assegura ser o Darth Vader. Desconfio. “Tão ignorante também não sou”, argumento. Para mim, tal maléfico personagem, usa uma máscara escura e uma capa – como tantas vezes tenho visto à rapaziada cá da casa – e respira ofegante e lentamente, quase como o país nos últimos tempos devido à tão célebre asfixia democrática. O Simão indigna-se, diz que, sim, que é ele, que está certo das suas afirmações, que é Darth Vader em criança, nessa altura intitulado Anakin Skywalker, filho de uma tal Shimi Skywalker e de um caçador que a violou (foi isto que ele me impingiu, juro, apesar da wikipédia desmentir). Céptica, interrogo-o:
 
Acção:
– Então, e a máscara?
– A máscara e aquele corpo só lho puseram mais tarde. Depois de lhe terem sido cortados os braços e as pernas e de ter ficado com a cara toda desfeita com lava.
E a cada explicação faz, convictamente, nos seus, o gesto dos membros a serem amputados e da face a ser desfigurada.
Eu, incrédula, questiono:
– Cortaram-lhe os braços e as pernas?
– Tudo! – Exclama, dramático. – E para tornar mais convincente a sua explicação, acrescenta: – Se queres que te diga, acho até que lhe cortaram a pila. Cá para mim, puseram-lhe depois uma pila robótica!
E, pronto, meus caros camaradas, perante esta explicação, não quis saber mais nada. Sobre o Darth Vader, fiquei esclarecida.
 

Simão, o Homem de Negócios

por Sofia Bragança Buchholz, em 21.09.09
Personagens:
• Simão, 8 anos
• Martim, 11 anos
• A minha irmã
• Eu

Cenário:
Ao jantar, especulo com a minha irmã sobre o que fazer se me sair o fabuloso jackpot do Euromilhões. Os meus sobrinhos ouvem-nos. Não fazem mínima noção de quanto representa a quantia em causa. Em todo o caso, o Simão aconselha o seu investimento:

Acção:
– Por que não compras duas farmácias? Não existe melhor negócio do que o dos medicamentos!


[Eu juro que não sei onde eles aprendem isto!]
 

Simão, o Homem dos Sete Instrumentos

por Sofia Bragança Buchholz, em 07.07.09

Personagens:
• Simão, 7 anos
• Eu
• Um grupo de amigos e os seus filhos

Cenário:
Verão, férias, calor, e um grupo de amigos reúne-se, depois do jantar, no bar do hotel, ao pé da piscina, para tomar café e conversar. Os seus filhos brincam por ali. O Simão é um deles.
De tronco nu, vejo-o brincar com duas palhinhas de plástico.
A certa altura dirige-se à nossa mesa e diz:

Acção:
– Vejam só o que eu inventei!
Debaixo de cada um dos braços – dobrados como se imitasse as asas de uma galinha – trás, enfiadas nas axilas, uma das extremidades das palhinhas. Nas outras, que segura com as mãos e que com agilidade faz chegar até à boca, sopra, alternadamente, à medida que mexe ligeiramente para cima e para baixo os braços, como se ensaiasse o bater dos membros das ditas aves. Emite um som estranho, oco, gasoso, ritmado pelo movimento dos braços que nos faz desatar a rir. Ufano com o feito, ele explica:
– Chama-se Saxo-sovaco!

 

Simão, o Sexista

por Sofia Bragança Buchholz, em 03.06.09
© Foto: Sofia Bragança Buchholz
 
Personagens:
• Simão, 8 anos 
• Eu
 
Cenário:
Passamos em frente ao Tribunal da Relação do Porto. Imponente, a enorme estátua em bronze que se ergue defronte do Palácio da Justiça, chama a atenção do Simão. Curioso, ele pergunta:
 
Acção:
– O que é aquilo?
– Aquilo é a estátua da Justiça. É uma obra magnífica feita por um escultor chamado Leopoldo de Almeida – explico, enquanto nos aproximamos para a observar melhor. – Vês a balança que tem na mão? Significa que a justiça deve pesar bem as provas apresentadas de forma a tomar correctamente as suas decisões. Do outro lado, tem uma espada, vês? Esta representa a sua capacidade de exercer o poder de decisão.
Ele fica a admirá-la, por um momento, em silêncio. Depois, arrogante, exclama, recomeçando a andar:
– É a Justiça, a República, a Liberdade… Tudo mulheres! Depois como é que querem que estas coisas funcionem bem?!
 

Simão e Francisco os Metrossexuais???

por Sofia Bragança Buchholz, em 17.05.09
Personagens:
• Simão
• Francisco
• Eu

Cenário:
Mais um serão a tomar conta dos meus sobrinhos.
Sentada na sala, leio tranquilamente um livro. Ao longe, vindo provavelmente do quarto dos brinquedos, oiço como ruído de fundo o habitual som das brincadeiras de dois miúdos que se adoram, mas que se tratam como cão e gato: gritarias, lutas, gargalhadas, esboços de choradeiras, enfim.
De repente, apercebo-me que a casa ficou silenciosa. Estranho. Chamo-os, mas nenhum me responde. Adivinhando prenúncio de asneira da grossa, levanto-me e galgo a escada num pulo. Do último andar reconheço, vindo da casa de banho, um som metálico, contínuo, que não identifico. Chamo-os novamente e, no mesmo instante, o ruído desaparece. Entro na casa de banho e vejo-os sentados, de rostos angélicos a olharem para mim. Desconfiada, pergunto:

Acção:
– O que estavam a fazer?
– Estávamos aqui a conversar – responde o mais pequeno, mestre na arte de endrominar.
– Que barulho era aquele? – Insisto.
– Barulho, que barulho? – Devolve-me a pergunta novamente o treteiro mais novo.
– Aquele que parecia uma máquina… – reparo que, estranhamente, têm as calças de pijama arregaçadas até aos joelhos e que o mais velho esconde alguma coisa atrás das costas. Imediatamente inquiro:
– O que tens na mão, aí atrás, Francisco?
Hesita, mas, acaba por confessar:
– Estávamos a experimentar a máquina de tirar pêlos da mãe – esclarece, ao mesmo tempo que estende a mão para ma mostrar.
Eu, atónita, olho para a máquina. Depois, olho para eles. Vejo nas suas caras a súplica pelo segredo. Volto a olhar para a máquina e… solto uma sonora gargalhada!
– Ó rapazes, isso não é uma máquina para tirar pêlos das pernas! Isso é um aparelho para tirar borboto às camisolas!
 

Simão e a Puberdade Precoce

por Sofia Bragança Buchholz, em 12.05.09

Personagens:

• Simão

• Eu

 

Cenário:

E foi assim, de repente, que, no histórico do Magalhães dele, dou de caras com a seguinte pesquisa:

 

Acção:

“Gajas boas com mamas e cunas

 

Simão, o exagerado

por Sofia Bragança Buchholz, em 29.01.09
Personagens:
• Simão
• Eu
• Avó
• Empregada
• Avô (como figurante)
• Mãe do Simão (como figurante)

Cenário:
A avó materna espatifou-se pelas escadas abaixo. Queixava-se de um braço, por isso chamou-se o 112. Foram executados todos os procedimentos da praxe: depois de imobilizada, foi colocada numa maca para ser transportada para o hospital.
Já no carro do INEM, ouço o Simão fatalista, do lado de fora, sussurrar, pesaroso, à empregada:

Acção:
– Pronto! Já está ligada às máquinas!
 

E não é que o tipo foi mesmo entrevistado pela televisão?!

por Sofia Bragança Buchholz, em 14.01.09

O Simão apareceu na RTP1, no Jornal da Tarde, um destes dias.

E, pronto, é nestas ocasiões que perdemos a total capacidade de discernimento e ficamos embevecidos com a meia dúzia de palavras tímidas que as nossas crias balbuciam para as câmaras. [Que triste figura a nossa!] 

 

Simão e o Pai Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 02.01.09

Personagens:

• Simão
• Mãe do Simão
• Eu (como narrador)
 
Cenário:
Este ano, pela primeira vez, o Pai Natal não apareceu em casa da minha família. Ninguém se fantasiou, ninguém fez “OH OH OH…”, ninguém fingiu descer pela chaminé às zero horas do dia 25 de Dezembro. Tal, deveu-se ao facto do Simão – que é o membro mais novo do clã – nos ter confessado ao jantar que já não acreditava na personagem.
A mãe, fingindo-se indignada, argumentou:
 
Acção:
– Mas, então, se já não acreditas no Pai Natal, por que ainda lhe escreves cartas a pedir presentes?
E ele injustiçado:
– Por que é que achas?! Olha, porque me obrigam na escola!
 

Simão, a Personalidade do Ano

por Sofia Bragança Buchholz, em 28.12.08

Personagens:

• Simão
• Eu
 
Cenário:
Telefono ao meu sobrinho a dizer que acaba de receber um prémio na blogosfera. Ele sabe o que esta é e que frequentemente escrevo sobre ele na Internet. Explico-lhe que um senhor chamado Vasco M. Barreto lhe atribuiu o galardão “Prémio Personalidade”. “Assim como o Barack Obama ou como o Cavaco e Silva”, enfatizo, na brincadeira, entusiasmando-o.
Do outro lado da linha adivinho-lhe um largo sorriso. Depois oiço-lhe em tom soberbo:
 
Acção:
– E quando é que mandam cá a casa as revistas e a televisão para me entrevistarem?
 

Simão, o Deserdado

por Sofia Bragança Buchholz, em 26.12.08

Personagens:
• Simão
• Eu

Cenário:
Numa loja, pergunto à empregada se tem a parka que seguro na mão num tamanho mais pequeno, ao que ela responde: “vou ver menina”.
O Simão está comigo e depois de ouvir aquilo diz-me, inocentemente:

Acção:
– Reparaste? Ela tratou-te por menina. Mas tu já tens quarenta! Tu já não és uma meni…
Nem o deixei continuar. Agarrei-me ao seu pescoço, simulando um estrangulamento:
– Olha, lá, pá, tu não queres ter presentes no Natal, pois não?! Pior, tu queres ser deserdado?!!!

 

Simão e o Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 23.12.08

Personagens:

• Simão

• Eu

 

Cenário:

No início do mês de Dezembro, dei ao Simão e ao Tomás um calendário de Natal. Para quem não sabe, este é, assim, uma espécie de “amortizador de ansiedade” da miudagem, constituído por 24 janelinhas, cada uma das quais com um chocolate dentro, que se vai retirando, um de cada vez, claro, todos os dias, até 24 de Dezembro, dia esse, em que as crianças terão direito, então, ao tal presente a sério, o tão, ansiosamente, esperado. Contudo, o Simão não resistiu e alguns dias depois foi apanhado pela mãe a lambuzar-se com o vigésimo quarto chocolate.

Quando soube, eu, a gozar, mas num tom sério a armar-me em moralista, repreendi-o:

 

Acção:

– Comeste os vinte e quatro chocolates todos de uma vez?! Que vergonha, Simão! Que vergonha!...

E ele, com um sorriso meio atrapalhado, mas com a maior das latas:

– Então, o Natal não é quando um homem quiser?!

 

Simão, o [Estafermo] Materialista

por Sofia Bragança Buchholz, em 12.12.08

Personagens:
• Simão
• Eu

Cenário:
Enquanto, no quarto, a arder em febre, me desfaço com uma gastroenterite, ouço, esperançada, na sala ao lado, a voz do Simão, a brincar. Antevejo, feliz, a minha salvação e desidratada suplico-lhe:

Acção:
– Simão, fazes-me um grande favor? Vais lá abaixo, à cozinha, buscar-me água?
A hesitação da sua resposta parece-me uma eternidade e a sentença da mesma, mata-me:
– Só vou se me deres três moedas.
 

Um bom método para esquecer a tristeza

por Sofia Bragança Buchholz, em 04.12.08
Personagens:
• Simão, 8 anos
• Eu
 
Cenário:
Apesar de ele garantir que este era eficaz, optámos por outro método, para combater a minha tristeza:
 
Acção:• LEGO Technic 8296 Dune Buggy
• 199 Peças
• Mais de hora e meia despendida na construção
•Contém também instruções para ser construído como tractor. [Ele que não se lembre!]
 
E ainda tive direito a um “mimo” quando me perdia com as peças minúsculas: “Porquê que as pessoas de idade nunca vêem bem? – Simão dixit
 
Não há melhor remédio, acreditem: sentirmo-nos miseráveis é, seguramente, a melhor forma de nos esquecermos que estamos mal!

 

É tramado ser-se Adulto

por Sofia Bragança Buchholz, em 30.11.08

Personagens:

• Simão, 8 anos
• Eu
 
Cenário:
Um destes dias, o Simão apanhou-me de lágrimas nos olhos. Quis saber o que tinha; respondi-lhe que nada. Insistiu, e expliquei-lhe que, às vezes, a vida dos adultos é complicada. Para desvalorizar o assunto, pedi-lhe a opinião e perguntei-lhe o que costumava fazer para se sentir melhor, quando estava triste. Respondeu-me convicto do seu método:
 
Acção:
– Bater no meu irmão.
 
[Ai, quem me dera! Quem me dera poder fazer o mesmo, caraças!...]

Simão, o Actor Dramático

por Sofia Bragança Buchholz, em 28.11.08
Personagens:
• Simão, 8 anos
• Tomás, 10 anos
• O tio S.
• Eu
 
Cenário:
Sabendo do gosto – e queda – do Simão pelas artes dramáticas, resolvemos levá-lo – e ao irmão – ao teatro.
Era uma peça diferente, intitulada “Boca de Cena”, que decorria durante um jantar.
Várias vezes eram feitas alusões satíricas ao tipo de alimentação que fazemos, desde o pobre leitãozinho que só queria ser uma estrela e que acaba assado no forno a uma exorbitância de graus; até ao desafortunado Ronald McDonald que, deslizando nuns patins de rodinhas, aparece para nos trazer uma Happy Meal, e termina assassinado pelo cozinheiro de serviço. Foi exactamente nesta cena, em que este persegue de faca em riste o infeliz boneco, que o Simão – que adorou a peça, diga-se, e que estava previamente avisado que esta era pura ficção e dos eventuais sustos que algumas partes lhe podiam causar – atemorizado com a ideia da extinção da sua refeição favorita e do seu restaurante predilecto, não resiste, se levanta e, dramaticamente, grita, implorando aos actores:
 
Acção:
– Nãoooo! O McDonald não! Não matem o Ronald McDonald! Pleaseeee!
 
[vídeo com a cena em questão aqui]

 

Simão, o Clássico

por Sofia Bragança Buchholz, em 26.11.08
Personagens:
• Simão, 7 anos
• O instrutor de golfe
• Eu (como narrador)

Cenário:
No clube de golfe, o meu sobrinho Simão tem aulas com o seu professor.
Depois de várias instruções e de múltiplas tentativas goradas, o Simão argumenta, sem querer dar o braço a torcer:

Acção:
– Eu tenho um estilo diferente. Digamos que é um estilo mais clássico de golfe.
 




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