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Ai, não aguentam, não!

por Sofia Bragança Buchholz, em 18.04.14

Já há alguns meses vive na minha rua um casal dentro de um carro. Vivem na Foz dentro de um carro. São, talvez, ligeiramente mais novos do que eu e têm bom aspecto. Lembro-me que, quando me apercebi, me assaltou de imediato a ideia de pobreza envergonhada. Imagino-os a dormirem ali e de manhã a irem tomar banho a um qualquer balneário e a continuarem o dia num emprego precário ou à procura dele. Durante o dia nunca estão. Nem eles, nem o carro.

Não sei como ajudar, se os devo, sequer, abordar, se querem a minha ajuda. Sei que, a serem verdade as minhas suspeitas, não quero um país assim. Não quero um país onde as pessoas perdem as casas e a esperança.

Por outro lado, o desenvolvimento e a modernização das cidades e da sociedade, com todas as suas vantagens, agravam ainda mais a situação em tempo de crise: a desestruturação dos laços familiares faz com que a tia x já não se sinta responsável pelo sobrinho y; que o sobrinho y já não vá valer ao irmão z.

Hoje, quando passei junto ao carro, ela dormia encostada a ele com uma mão abandonada perto dos seus cabelos, em tom de carícia. “Felizmente, têm-se um ao outro”, pensei. Cobria-os a manta do costume: um xadrez britânico áspero bege e preto tapa-lhes a desgraça.

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comentários

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De Rinka a 18.04.2014 às 11:07

Eis o post que ilustra, melhor que qualquer outra coisa, os efeitos do "ajustamento" e a "retoma".
Há uma solução! Não vote em quem quer que isto aconteça
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De Daniel Ferreira a 18.04.2014 às 11:12

"Sei que, a serem verdade as minhas suspeitas, não quero um país assim. Não quero um país onde as pessoas perdem as casas e a esperança."
Não sei o que se passou com esse casal, mas sei que tem que se ter atenção às generalizações.

Por um lado, sei de familias inteiras a viver em estações de comboios.
Por outro, lembro-me de um caso no Montijo a uns anos, que chegou aos jornais: um casal vivia no carro, ele era bastante mais velho que ela (que tinha 18 ou 19 anos), não queriam trabalhar, e como tal, sentiam-se bem a viver no carro.

"Não sei como ajudar, se os devo, sequer, abordar, se querem a minha ajuda."
O que é preciso é fazer chegar as diferentes ONG a estas pessoas, e perceber o que levou a esta situação

http://www.ami.org.pt/default.asp?id=p1p211p215p340p281&l=1
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De Caetano a 18.04.2014 às 11:51


Sorte a deles que estamos na Páscoa, haverá certamente alguém que antes de ir para a missa lhes deixará uma esmola. Fazendo minha a sua imaginação suponho que terão pais, provavelmente reformados, mas também eles às voltas com o ódio e a imbecilidade do rapazola que temos como primeiro-ministro, que no Domingo irá à igreja, não uma qualquer, mas à mesmíssima onde estarão Ulrich e seus pares, todos comungarão e se lerem este seu desabafo não deixarão de exclamar; coitados.

Tenho num entanto um receio, a minha imaginação é tramada, que de alguma forma Isabel Jonet tome conhecimento da situação e que ao mesmo tempo que lhes dê um kilo de arroz os aconselhe a ir limpar as matas e a poupar na água com que lavam os dentes no balneário que eventualmente utilizam.

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De José Batista a 18.04.2014 às 17:08

Não aguentam, não. E são muitos.
À porta da minha casa não passa semana que não venha alguém pedir. Hoje já aconteceu. Às vezes não é um pedir aberto, é oferecer por pouco dinheiro uns pares de peúgas de fraca qualidade ou uns livros mal amanhados, a que correspondo com ainda menos dinheiro, mas sem ficar com os produtos. Isto dói(-me).
O que podemos/devemos fazer?
Bem haja pela sensibilidade.
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De tron a 20.04.2014 às 06:39

Não foi para haver casos desses que se fez a revolução
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De sssssss a 20.04.2014 às 20:33

vai pedir ajuda ao miguel relvas
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De Alexandre P a 20.04.2014 às 21:48

Parabéns pela sua humanidade. Nos tempos que correm, acredite que é um elogio. Bem haja.
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De Nuno a 25.04.2014 às 19:56

O drama que o post descreve provocou-me náusea. Nem quero tirar ilações desta ou daquela ordem, aqui trata-se de pessoas e não de argumentos.
É claro que de nada vale, mas só espero que encontrem conforto um no outro e consigam sair da situação.

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