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isto não é vida para ninguém

por Rodrigo Moita de Deus, em 25.03.20

Algures no tempo a morte natural morreu. Passou a ter nome. E causa. E o que tem nome e causa pode ser evitado. E se a morte pode ser evitada, então…então exigimos cura, exigimos tratamento, exigimos o fim da mortalidade. Para o velho que só quer descansar. Para o novo cujo corpo não quer funcionar.

Algures no tempo a cura deixou de ser a exceção e passou a ser a regra. Vivemos agarrados aos gráficos, às curvas aos cuidados e à desumanidade de um quotidiano esterilizado.

E voluntariamente entregamos trezentos anos de conquistas e avanços civilizacionais às mãos do medo.

Sinais do tempo. Vivemos mal com a morte. Com a finitude. Vivemos mal com a única certeza de todos os tempos. E se antes sempre tínhamos o conforto de uma vida eterna hoje não sobra nada da Fé. Na falta de Fé, entregamos a nossa vida a especialistas em adiar mortes. Porque é isso mesmo. Adiar mortes.    

Não é a sobrevivência, estupido. É a vida. Lição primeira do primata que o deixou de ser.

Não é a economia, estupido. É a vida. E não temos que escolher, não podemos escolher, entre a vida e a morte.

Quanto tempo vai passar até que uma mãe abrace o filho que volta da escola?

E quanto tempo vai passar até que se voltem a chorar os outros todos que tiveram o azar de morrer de todas as outras causas?

Não somos imortais. Todos vamos morrer. Mais cedo ou mais tarde. Não escolhemos como morremos. Mas escolhemos como vivemos. Enquanto cidadãos, indivíduos e comunidade. E isto não é vida. Para ninguém. 


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