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Estou apaixonada por um assassino

por Sofia Bragança Buchholz, em 14.11.08

Colin Farrell no filme "Em Bruges"

 

Todas as sextas-feiras, vou ao cinema. Como podem imaginar, sucedem-se meses de consumo de absoluta porcaria, pois não é assim tão fértil a produção cinéfila de qualidade. Contudo, nas últimas quatro semanas, surpreendentemente, a tendência inverteu-se: saíram-me quatro bons filmes na rifa. O primeiro “Destruir depois de ler”, com uma belíssima interpretação de Brad Pitt, a fazer lembrar um “Fargo” – filme que me agradou bem mais do que o afamado “Este país não é para velhos”. Depois, “Paris” do qual já aqui falei, seguido de “A Turma” também aqui referido pelo Henrique. Por fim, foi a vez de “Em Bruges”, de Martin McDonagh, com um Colin Farrell num papel que o próprio McDonagh caracterizou como sendo “de algum modo, mais sexy e perigoso do que tudo o que Colin fez antes".

Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson) são dois assassinos enviados de férias para Bruges pelo seu chefe, Harry (Ralph Fiennes), na sequência de um trabalho que correu mal e em que Ray, por engano, mata um rapazinho. Tendo em vista escaparem à atenção das autoridades, estes dois personagens, habituados à adrenalina e à acção, deambulam por uma Bruges medieval, repleta de história, de cultura, de recantos e pormenores. A nostalgia do cenário mistura-se, então, com os protagonistas do filme. Os contrastes são a ironia e o encanto do filme: a paz da paisagem contrasta com a violência das personagens; a crueldade destas, com a sua sensibilidade; a sua malvadez com a sua ética. O tempo parece desacelerar e conceder-lhes minutos infinitos para a introspecção, fazendo que, de dentro destes “vilões”, vão surgindo características, à primeira vista, inimagináveis para o espectador: a sensibilidade de Ken, a dor de Ray, a honra de Harry…
E depois a soberba interpretação de todos e de Colin Farrell em particular, capaz de fazer qualquer coração feminino apaixonar-se por aquele assassino entediado com a pacatez da cidade Belga, indignado, quando o seu companheiro o tenta entusiasmar com a sua beleza, a fazer lembrar-me a minha própria pessoa quando alguém gaba as qualidades e vantagens do país de Angela Merkel – “vive-se melhor, ganha-se mais, é tão bonito…” – e eu, com a mesma expressão – e voz esganiçada – de horror de Farrell no filme, respondo: “O quê???? Viver na [porra] d`Alemanha? Nem morta, pá!

 

Nota: o filme está integralmente no YouTube dividido em 13 partes. A primeira, pode ser vista aqui.

 

Adenda: Está no Youtube em 12 partes (não 13) e entre a 11ª e 12ª falta o final. Não consegui encontrá-lo integralmente como o original (apenas musicado) e está aqui. E incompleto aqui.

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A beleza da simplicidade

por Sofia Bragança Buchholz, em 27.10.08

Paris

 

Tenho sempre tendência para gostar dos filmes que a critica nacional da especialidade não gosta. Paris, o último filme de Cédric Klapisch (realizador de “A Residência Espanhola” e “As Bonecas Russas”), é mais um desses casos.

Ele relembra-nos como as coisas simples podem ser belas; como as coisas comuns têm encanto; como é preciosa a vida – facto que tantas vezes, com as preocupações e aborrecimentos do dia-a-dia, nos esquecemos.
Pierre é um jovem bailarino que sabe que está doente. Precisa de um transplante cardíaco que lhe dará 60% de hipóteses de sobreviver. 40% de probabilidades de morrer fazem-no ver a vida de outra maneira, olhar – literalmente – a vida à sua volta com outros olhos. Literalmente, porque é do seu apartamento, num último andar de um prédio de Paris, que ele observa a existência dos outros, que o realizador nos vai dando a conhecer num cruzar de acasos: do pragmático professor universitário em crise existencial que se apaixona pela aluna que mora de fronte de Pierre; do ex-companheiro da fruteira do bairro com quem a irmã de Pierre se vem a envolver; do refugiado cujo irmão é utente dos serviços desta, a narrativa vai-se desenrolando numa teia repleta de sentido de humor, com o lindíssimo pano de fundo que é a Cidade da Luz.

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