Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Pobres mas gloriosas

por Sofia Bragança Buchholz, em 08.12.08

Ontem bateu-me à porta de casa a Paula. Não foi à porta do prédio, foi de casa mesmo. Talvez tenha sido a familiaridade com que se apresentou que lhe deu o livre-trânsito de entrada no edifício: “é a Paula”. Foi o que me disse quando entreabri a porta para ver quem era e pasmei a olhar para uma completa desconhecida.

A Paula devia ter a minha idade. Talvez mais nova, mas os maus-tratos da vida faziam-na parecer mais velha. Era desdentada, tinha o cabelo oleoso e a cara demasiado vincada. Tinha seis meninas, informou-me. Balbuciava com uma intimidade que não gostei – a mesma da apresentação – que alguém a tinha deixado com as seis crianças. Adivinhava-se ali heroína e não é metaforicamente falando. Fez questão de mas mostrar e desfilou uma série de cartões e fotografias em que mal se viam as diferenças entre elas, podendo, as seis, ser uma só. Estranhei não haver uma foto de conjunto de todas, mas estive tentada a dar-lhe alguma coisa, pois mesmo sendo tudo aldrabice, era inegável que estava ali a miséria. Contudo, houve, a certa altura, um pormenor que me fez mudar de ideias; um pequeno detalhe determinante na minha decisão: no meio de BI`s e cartões do Sistema Nacional de Saúde, a Paula exibiu os cartões de sócias do Futebol Clube do Porto das filhas. Pobres mas gloriosas. Não é nada contra o clube, garanto, mas, pura e simplesmente, aquilo na minha cabeça soou demasiado estranho.
 




Posts mais comentados