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E não é que o tipo foi mesmo entrevistado pela televisão?!

por Sofia Bragança Buchholz, em 14.01.09

O Simão apareceu na RTP1, no Jornal da Tarde, um destes dias.

E, pronto, é nestas ocasiões que perdemos a total capacidade de discernimento e ficamos embevecidos com a meia dúzia de palavras tímidas que as nossas crias balbuciam para as câmaras. [Que triste figura a nossa!] 

 

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Posologia

por Sofia Bragança Buchholz, em 13.01.09

Este meu período de recobro não tem sido fácil, queridos leitores. Desde a Fátima Lopes e o Manuel Luís Goucha de manhã, passando pela Júlia Pinheiro, o Nuno Graciano e a Maya à tarde, às telenovelas da noite, são penosas as pastilhas que tenho vindo a engolir durante estes meus dias de convalescença na cama.

 

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Contra-sensos de uma operação

por Sofia Bragança Buchholz, em 12.01.09

Espetaram-me agulhas, enfiaram-me tubos, massacraram-me a pele, violentaram-me as veias, infligiram-me dor, privaram-me de alimento, interditaram-me a água, proibiram-me a companhia, desnudaram-me os órgãos, induziram-me o sono, cortaram-me o corpo, cozeram-me a carne, provocaram-me o despertar, alteraram-me as rotinas, violaram-me a intimidade, obrigaram-me a agir como não tinha vontade… e eu agradeci. Convicta e sinceramente, agradeci terem-me tratado tão bem.

 

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Prefiro sempre dizer "até já"

por Sofia Bragança Buchholz, em 06.01.09

Não podia deixar de escrever algumas palavras sobre a saída do Paulo Pinto Mascarenhas da Blogosfera. Sei que este afastamento é pelas melhores razões, mas, mesmo assim, entristece-me. Sinto uma espécie de nozinho na garganta, o mesmo que sentimos quando vemos um jogador excepcional deixar a selecção.

Porque é inevitável, quando falamos da Blogosfera nacional, a associarmos ao Paulo, sem ele, ela ficará manifestamente mais pobre. O Paulo foi um dinamizador, um caça talentos (como diz o Henrique), um defensor apaixonado deste “novo” meio. O seu nome e a sua dedicação ficarão para sempre a ele ligados.
E para me despedir dele aqui, na própria Blogosfera, nada melhor do que relembrar as suas palavras:
 
Em Portugal, escrever sobre blogues é como ler o País que temos. A nossa blogosfera tem todos os defeitos da sociedade portuguesa, mas acrescenta liberdade ao debate democrático. Exagerar a importância dos blogues é tão absurdo como tentar desmentir a sua influência na agenda mediática.
 
Aliás, entre jornais e blogosfera existe uma relação de duplo sentido, num círculo que pode ser virtuoso. Numa altura em que alguns afirmam que o papel está condenado a longo prazo, os blogues – ou os seus autores – provam que existem milhares de potenciais leitores de jornais. Tentar reduzir os blogues a uma fonte de calúnias, difamação, boatos e teorias da conspiração, sobre o manto do anonimato, é algo que exibe uma ignorância em estado puro. Ou má-fé.

Difamações e teorias da conspiração – que sempre existiram sobre outras formas menos sofisticadas – podem ganhar o poder da palavra publicada num novo meio de comunicação, alcançando uma audiência que ultrapassa o controlo das antigas elites. O que antes era apenas sussurrado nas conversas privadas entre políticos, jornalistas e demais privilegiados obtém agora uma circulação, digamos, «mainstream».

Mas se os blogues podem funcionar como veículos de boatos, também podem ser poderosos instrumentos da sociedade civil na fiscalização do poder político. Foi a partir da blogosfera que nasceu a contestação ao aeroporto da Ota e foi num blogue que surgiu a investigação sobre a licenciatura do primeiro-ministro numa universidade depois encerrada. Por outro lado, os blogues foram adoptados como instrumento de comunicação alternativo por muitas figuras públicas, que cedo intuíram a relevância do meio no mercado das ideias ou na marcação da agenda. Em sentido inverso, contribuíram também para uma maior concorrência na opinião tradicional: novos colunistas saltaram directamente dos blogues para os jornais e revistas nacionais.

Convém salientar que a dimensão deste choque tecnológico não se esgota na análise política. Longe disso. Basta lembrar que, antes de serem famosos, os Gato Fedorento mantiveram um dos blogues de maior audiência. Da arquitectura à gastronomia, da pintura à fotografia, da educação à economia, vale a pena estar ligado. É este o meu primeiro objectivo: ligar os leitores do Negócios aos melhores textos publicados nos blogues nacionais. Vale a pena ler o País e o mundo a partir do que se escreve na blogosfera.
[Paulo Pinto Mascarenhas, no Jornal de Negócios Online]
 
E vale a pena entrar nela – para mim valeu (e muito!) – para conhecer pessoas como o Paulo Pinto Mascarenhas.
 

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Simão e o Pai Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 02.01.09

Personagens:

• Simão
• Mãe do Simão
• Eu (como narrador)
 
Cenário:
Este ano, pela primeira vez, o Pai Natal não apareceu em casa da minha família. Ninguém se fantasiou, ninguém fez “OH OH OH…”, ninguém fingiu descer pela chaminé às zero horas do dia 25 de Dezembro. Tal, deveu-se ao facto do Simão – que é o membro mais novo do clã – nos ter confessado ao jantar que já não acreditava na personagem.
A mãe, fingindo-se indignada, argumentou:
 
Acção:
– Mas, então, se já não acreditas no Pai Natal, por que ainda lhe escreves cartas a pedir presentes?
E ele injustiçado:
– Por que é que achas?! Olha, porque me obrigam na escola!
 

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Simão, a Personalidade do Ano

por Sofia Bragança Buchholz, em 28.12.08

Personagens:

• Simão
• Eu
 
Cenário:
Telefono ao meu sobrinho a dizer que acaba de receber um prémio na blogosfera. Ele sabe o que esta é e que frequentemente escrevo sobre ele na Internet. Explico-lhe que um senhor chamado Vasco M. Barreto lhe atribuiu o galardão “Prémio Personalidade”. “Assim como o Barack Obama ou como o Cavaco e Silva”, enfatizo, na brincadeira, entusiasmando-o.
Do outro lado da linha adivinho-lhe um largo sorriso. Depois oiço-lhe em tom soberbo:
 
Acção:
– E quando é que mandam cá a casa as revistas e a televisão para me entrevistarem?
 

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Caramba...

por Sofia Bragança Buchholz, em 28.12.08

Diogo,

 
Existiram mais referências ao Natal e culturais: sugestões de livros que podiam ser oferecidos, músicas que podiam ser ouvidas, reflexões sobre comportamentos, e, até, textos literários (que apesar de não estarem directamente associados ao Natal, retratam situações que poderiam ter ocorrido numa qualquer Urgência, num qualquer dia 24 ou 25 de Dezembro). Não se pode, portanto, dizer que o 31 da Armada deixou de ser um blog cultural.
Agora, não posso deixar de concordar contigo numa coisa: nestes cinco dias – em que só eu postei neste blog –, ninguém fez referência à génese do Natal: o nascimento de Cristo.
 
Quanto às anjas, são meros adereços decorativos sem importância, como bolas de Natal, que servem apenas para dar mais cor e tornar mais bonita a árvore.
 

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Azares

por Sofia Bragança Buchholz, em 27.12.08

 A senhora sabe se é seropositiva? – Perguntou a médica, dirigindo-se à prostituta que acompanhava os dois rapazes.
– Fiz o teste há pouco tempo e deu negativo – respondeu a mulher.
– Fizeram bem em vir os três à urgência. Se houver algum problema, quanto mais cedo se descobrir, mais hipóteses de sucesso se tem no ataque – informou, surpreendida por ver aquele trio entrar-lhe porta adentro e ao mesmo tempo satisfeita por terem tido a destreza de o fazerem.
– Ai, Doutora, que o diacho do preservativo tinha de romper! – Lamenta o rapaz, em pânico – Acha que posso ter apanhado a SIDA? Estava a fazer sexo anal… é pior não é, Doutora? – baralhava o rapaz, habituado aos ensinamentos masculinos da família, que em casa a mulher é para procriar e vias só há uma, aquela por onde nascem os filhos. E na rua, sim, onde está a maldade e o pecado, qualquer orifício serve, sendo os de maior prazer os proibidos no lar.
O outro rapaz mantinha-se calado. Na orgia tinha sido o escolhido, e premiado com um preservativo sem defeito. Ou mais resistente. Ou, talvez, a sua performance tenha sido menos entusiasta que a do outro, que fora brindado com um puf seco do látex.
A prostituta acompanhava-o no silêncio, parecendo inume a emoções. Se mentia nas respostas não se notava, se sofria com a sentença não dizia, se ansiava um prognóstico omitia. Parecia indiferente a tudo e a todos que a rodeavam, um autismo apurado, fruto de longos anos de treino a que a obrigava a sua profissão.
O rapaz chorava. Dois anos na prisão por tráfico de droga, um azar, nem precisava de andar nessa vida, pois que os pais tinham posses, comerciantes conhecidos que eram, fora apanhado a fazer um favor a um amigo que sofria na ressaca e ansiava por uma dose. E agora fora apanhado, novamente, mas na inconsciência dos seus tenros anos e do seu modelo de vida, pois que o pai também ia às putas, e gabava-se em casa em frente dos filhos homens, enquanto a mãe e a irmã, na cozinha, preparavam o cozido e temperavam os tomates para a salada.
– Ai, Doutora e agora? Não quero dar mais um desgosto à minha mãezinha, coitada. Já basta eu ter estado preso e agora isto…
E agora isto, o resultado foi positivo, o primeiro teste, e a médica guardava para si aquela informação, esperando a confirmação do resultado, sem querer alarmar antes de garantia, sem poder actuar antes de provas. E se tudo aquilo lhe parecia estranho à luz dos seus comportamentos e valores, não deixou de pensar naquela vez, há muito tempo, muito mesmo, antes do marido e dos filhos, da licenciatura e do doutoramento, do apartamento na Lapa e o BMW na garagem, em que numa semana de Queima das Fitas, numa noite de bebedeira, o álcool e o desejo falaram mais alto e deu uma queca com aquele tipo que não conhecia de parte nenhuma.
E ela, sim, nem sequer pediu para ele usar preservativo…
 


© Sofia Bragança Buchholz, 2005. Reprodução Interdita.

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Simão, o Deserdado

por Sofia Bragança Buchholz, em 26.12.08

Personagens:
• Simão
• Eu

Cenário:
Numa loja, pergunto à empregada se tem a parka que seguro na mão num tamanho mais pequeno, ao que ela responde: “vou ver menina”.
O Simão está comigo e depois de ouvir aquilo diz-me, inocentemente:

Acção:
– Reparaste? Ela tratou-te por menina. Mas tu já tens quarenta! Tu já não és uma meni…
Nem o deixei continuar. Agarrei-me ao seu pescoço, simulando um estrangulamento:
– Olha, lá, pá, tu não queres ter presentes no Natal, pois não?! Pior, tu queres ser deserdado?!!!

 

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Simão e o Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 23.12.08

Personagens:

• Simão

• Eu

 

Cenário:

No início do mês de Dezembro, dei ao Simão e ao Tomás um calendário de Natal. Para quem não sabe, este é, assim, uma espécie de “amortizador de ansiedade” da miudagem, constituído por 24 janelinhas, cada uma das quais com um chocolate dentro, que se vai retirando, um de cada vez, claro, todos os dias, até 24 de Dezembro, dia esse, em que as crianças terão direito, então, ao tal presente a sério, o tão, ansiosamente, esperado. Contudo, o Simão não resistiu e alguns dias depois foi apanhado pela mãe a lambuzar-se com o vigésimo quarto chocolate.

Quando soube, eu, a gozar, mas num tom sério a armar-me em moralista, repreendi-o:

 

Acção:

– Comeste os vinte e quatro chocolates todos de uma vez?! Que vergonha, Simão! Que vergonha!...

E ele, com um sorriso meio atrapalhado, mas com a maior das latas:

– Então, o Natal não é quando um homem quiser?!

 

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The Birds - versão Porto (2008)

por Sofia Bragança Buchholz, em 22.12.08

 

 
É só para dizer que neste momento, aqui no Porto, elas – as filhas da mãe das gaivotas que sujam e devoram tudo o que vêem à frente, até as crias dos patinhos do Parque da Cidade – gritam que nem umas desalmadas, e que não estamos muito longe da cena da foto em cima, do filme “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock. É que estes pássaros – que era suposto alimentarem-se no mar (ou no rio, vá) – também eles se adaptaram aos tempos modernos e abastecem-se nos lixos dos supermercados.
Quanto à canção que se trauteia em rodapé, queridos camaradas, sempre preferi a outra versão, aquela que se aplicava agora que nem uma luva: a da gaivota que voava, voava, filha da …. nunca mais se cansava!
 
 
PS: Voltarei ao tema quando tiver tempo.
 

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O samba da Foz ao domingo à tarde

por Sofia Bragança Buchholz, em 21.12.08

 

É a menina dos totós, a rapariga e o namorado, a bolacha americana, a gorda da coxa grossa. Os dois velhotes bem vestidos, a jovem do collant de renda, a senhora dos tremoços, o rafeiro farfalhudo, o cão de raça pela trela. É a foto de família, o casalinho do filho pequeno, o relato de futebol, o fumo do cigarro. É a moça da saia comprida, a velha que fica a olhar, a neta lambida da velha, o senhor da castanha assada. É o cata-vento que brilha, o menino que faz birra, o pai contrariado, a mãe com ar de má. É o fotógrafo a aguardar o momento, é a rapariga do gelado, a outra dos óculos escuros e o rapaz do blusão à maneira. É a menina dos patins em linha, o senhor da biciclete, o menino do skate, o atleta da corrida. São os carros em fila na marginal, a música alta que toca, é o parolo do cabriolet, o bimbo da lambreta. É a loira das raízes escuras, o puto ranhoso gordo, as velhinhas de braço dado e as meninas do jogging. São os pescadores de cavalas, os Labradores e os donos, as senhoras perfumadas, os cavalheiros de gel. É a menina dos totós, a rapariga e o namorado, a gorda da coxa grossa e mais bolacha americana…

 

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Sugestões de Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 18.12.08

O Jardim de Cimento – Ian McEwan
 
É um belíssimo romance, com uma forte carga psicológica que consegue ao mesmo tempo ser inocente e cruel, ingénuo e chocante. É a história de quatro irmãos (de 17, 15, 13 e 6 anos) que ficam órfãos de pai e posteriormente de mãe. Com o pânico de serem separados e entregues a instituições, resolvem não comunicar a morte da mãe e enterrarem-na na cave, num baú, cobrindo-a com cimento. A partir daí ficam entregues a uma liberdade estranha e doentia, em que as regras, o tempo e o espaço são aqueles que eles conseguem definir (ou melhor, que acabam por não conseguir definir). É um livro perturbador e excitante, onde o sexo, a morte, a dor, a perda e os jogos solitários estão presentes ao virar de cada página.
 

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Simão, o [Estafermo] Materialista

por Sofia Bragança Buchholz, em 12.12.08

Personagens:
• Simão
• Eu

Cenário:
Enquanto, no quarto, a arder em febre, me desfaço com uma gastroenterite, ouço, esperançada, na sala ao lado, a voz do Simão, a brincar. Antevejo, feliz, a minha salvação e desidratada suplico-lhe:

Acção:
– Simão, fazes-me um grande favor? Vais lá abaixo, à cozinha, buscar-me água?
A hesitação da sua resposta parece-me uma eternidade e a sentença da mesma, mata-me:
– Só vou se me deres três moedas.
 

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Pobres mas gloriosas

por Sofia Bragança Buchholz, em 08.12.08

Ontem bateu-me à porta de casa a Paula. Não foi à porta do prédio, foi de casa mesmo. Talvez tenha sido a familiaridade com que se apresentou que lhe deu o livre-trânsito de entrada no edifício: “é a Paula”. Foi o que me disse quando entreabri a porta para ver quem era e pasmei a olhar para uma completa desconhecida.

A Paula devia ter a minha idade. Talvez mais nova, mas os maus-tratos da vida faziam-na parecer mais velha. Era desdentada, tinha o cabelo oleoso e a cara demasiado vincada. Tinha seis meninas, informou-me. Balbuciava com uma intimidade que não gostei – a mesma da apresentação – que alguém a tinha deixado com as seis crianças. Adivinhava-se ali heroína e não é metaforicamente falando. Fez questão de mas mostrar e desfilou uma série de cartões e fotografias em que mal se viam as diferenças entre elas, podendo, as seis, ser uma só. Estranhei não haver uma foto de conjunto de todas, mas estive tentada a dar-lhe alguma coisa, pois mesmo sendo tudo aldrabice, era inegável que estava ali a miséria. Contudo, houve, a certa altura, um pormenor que me fez mudar de ideias; um pequeno detalhe determinante na minha decisão: no meio de BI`s e cartões do Sistema Nacional de Saúde, a Paula exibiu os cartões de sócias do Futebol Clube do Porto das filhas. Pobres mas gloriosas. Não é nada contra o clube, garanto, mas, pura e simplesmente, aquilo na minha cabeça soou demasiado estranho.
 

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Um bom método para esquecer a tristeza

por Sofia Bragança Buchholz, em 04.12.08
Personagens:
• Simão, 8 anos
• Eu
 
Cenário:
Apesar de ele garantir que este era eficaz, optámos por outro método, para combater a minha tristeza:
 
Acção:• LEGO Technic 8296 Dune Buggy
• 199 Peças
• Mais de hora e meia despendida na construção
•Contém também instruções para ser construído como tractor. [Ele que não se lembre!]
 
E ainda tive direito a um “mimo” quando me perdia com as peças minúsculas: “Porquê que as pessoas de idade nunca vêem bem? – Simão dixit
 
Não há melhor remédio, acreditem: sentirmo-nos miseráveis é, seguramente, a melhor forma de nos esquecermos que estamos mal!

 

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É tramado ser-se Adulto

por Sofia Bragança Buchholz, em 30.11.08

Personagens:

• Simão, 8 anos
• Eu
 
Cenário:
Um destes dias, o Simão apanhou-me de lágrimas nos olhos. Quis saber o que tinha; respondi-lhe que nada. Insistiu, e expliquei-lhe que, às vezes, a vida dos adultos é complicada. Para desvalorizar o assunto, pedi-lhe a opinião e perguntei-lhe o que costumava fazer para se sentir melhor, quando estava triste. Respondeu-me convicto do seu método:
 
Acção:
– Bater no meu irmão.
 
[Ai, quem me dera! Quem me dera poder fazer o mesmo, caraças!...]

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Dúvidas que me perseguem

por Sofia Bragança Buchholz, em 29.11.08

Depois de, num montão de máquinas de tirar borboto, ter retirado a única estragada, e de, numa pilha de livros, ter escolhido o único cuja sobrecapa não corresponde ao conteúdo, com tanta pontaria, porque não acerto de vez no Euromilhões?

 

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Simão, o Actor Dramático

por Sofia Bragança Buchholz, em 28.11.08
Personagens:
• Simão, 8 anos
• Tomás, 10 anos
• O tio S.
• Eu
 
Cenário:
Sabendo do gosto – e queda – do Simão pelas artes dramáticas, resolvemos levá-lo – e ao irmão – ao teatro.
Era uma peça diferente, intitulada “Boca de Cena”, que decorria durante um jantar.
Várias vezes eram feitas alusões satíricas ao tipo de alimentação que fazemos, desde o pobre leitãozinho que só queria ser uma estrela e que acaba assado no forno a uma exorbitância de graus; até ao desafortunado Ronald McDonald que, deslizando nuns patins de rodinhas, aparece para nos trazer uma Happy Meal, e termina assassinado pelo cozinheiro de serviço. Foi exactamente nesta cena, em que este persegue de faca em riste o infeliz boneco, que o Simão – que adorou a peça, diga-se, e que estava previamente avisado que esta era pura ficção e dos eventuais sustos que algumas partes lhe podiam causar – atemorizado com a ideia da extinção da sua refeição favorita e do seu restaurante predilecto, não resiste, se levanta e, dramaticamente, grita, implorando aos actores:
 
Acção:
– Nãoooo! O McDonald não! Não matem o Ronald McDonald! Pleaseeee!
 
[vídeo com a cena em questão aqui]

 

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Simão, o Clássico

por Sofia Bragança Buchholz, em 26.11.08
Personagens:
• Simão, 7 anos
• O instrutor de golfe
• Eu (como narrador)

Cenário:
No clube de golfe, o meu sobrinho Simão tem aulas com o seu professor.
Depois de várias instruções e de múltiplas tentativas goradas, o Simão argumenta, sem querer dar o braço a torcer:

Acção:
– Eu tenho um estilo diferente. Digamos que é um estilo mais clássico de golfe.
 

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Simão, o Náufrago

por Sofia Bragança Buchholz, em 20.11.08

Personagens
• Simão, 7 anos
• Eu
• A minha irmã

Cenário:
Jantámos num restaurante. Já no fim do repasto, o meu sobrinho Simão, aborrecido, farto de ali estar, queixa-se que nunca mais vamos embora. Eu, entretida em conversas com a minha irmã, sugiro que ele brinque a qualquer coisa para se distrair. Contrariado, ele lá vai.
Vejo-o pedir uma caneta ao empregado. Vejo-o escrever qualquer coisa num guardanapo de papel que, de seguida, transforma num rolinho. E vejo-o enfiar o guardanapo numa garrafa vazia que, num frapé enorme, ao nosso lado, bóia no gelo já derretido.
Quando estamos quase a levantar-nos para sair, pergunto-lhe se posso ler o que escreveu. Ele, solícito, responde:

Acção:
– Claro!
E dá-me para a mão a garrafa a pingar.
Retiro-lhe com um estalido oco a rolha e recolho o papel que desenrolo com cuidado. Neste podia ler-se:
Socorro! Salvem-me, por favor! Estou preso num restaurante, "refain" de duas chatas!

 

[repost daqui]

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Simão e a Crise

por Sofia Bragança Buchholz, em 16.11.08
Personagens:
• Simão, 8 anos (aka, Senhor António)
• Eu

Cenário:
Ao entrar no quarto do meu sobrinho, pergunto-lhe, em forma de cumprimento:

Acção:
– Então, como é que vai a vida?
– Muito mal! Estou desempregado! – Responde em tom desolado.
– Ai sim? – E lembrando-me de que ele, nas suas brincadeiras de faz de conta, costumava encarnar um personagem que tinha um restaurante, alinho na dramatização:
– Mas, e o seu restaurante? O Senhor não tinha um restaurante?
– Faliu – informa-me, fatalmente.
– Oh, coitado, Senhor António!... – Lamento, dirigindo-me a ele no seu nome fictício.
Ao ver o meu desânimo, ele chama-me à parte e sussurra-me como quem conta um segredo que não se quer ouvido por mais ninguém:
– Vendi-o. Deu-me muito dinheirinho; está guardado. Mas, aqui entre nós, para todos os efeitos, para os outros, estou desempregado, ok?!

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Estou apaixonada por um assassino

por Sofia Bragança Buchholz, em 14.11.08

Colin Farrell no filme "Em Bruges"

 

Todas as sextas-feiras, vou ao cinema. Como podem imaginar, sucedem-se meses de consumo de absoluta porcaria, pois não é assim tão fértil a produção cinéfila de qualidade. Contudo, nas últimas quatro semanas, surpreendentemente, a tendência inverteu-se: saíram-me quatro bons filmes na rifa. O primeiro “Destruir depois de ler”, com uma belíssima interpretação de Brad Pitt, a fazer lembrar um “Fargo” – filme que me agradou bem mais do que o afamado “Este país não é para velhos”. Depois, “Paris” do qual já aqui falei, seguido de “A Turma” também aqui referido pelo Henrique. Por fim, foi a vez de “Em Bruges”, de Martin McDonagh, com um Colin Farrell num papel que o próprio McDonagh caracterizou como sendo “de algum modo, mais sexy e perigoso do que tudo o que Colin fez antes".

Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson) são dois assassinos enviados de férias para Bruges pelo seu chefe, Harry (Ralph Fiennes), na sequência de um trabalho que correu mal e em que Ray, por engano, mata um rapazinho. Tendo em vista escaparem à atenção das autoridades, estes dois personagens, habituados à adrenalina e à acção, deambulam por uma Bruges medieval, repleta de história, de cultura, de recantos e pormenores. A nostalgia do cenário mistura-se, então, com os protagonistas do filme. Os contrastes são a ironia e o encanto do filme: a paz da paisagem contrasta com a violência das personagens; a crueldade destas, com a sua sensibilidade; a sua malvadez com a sua ética. O tempo parece desacelerar e conceder-lhes minutos infinitos para a introspecção, fazendo que, de dentro destes “vilões”, vão surgindo características, à primeira vista, inimagináveis para o espectador: a sensibilidade de Ken, a dor de Ray, a honra de Harry…
E depois a soberba interpretação de todos e de Colin Farrell em particular, capaz de fazer qualquer coração feminino apaixonar-se por aquele assassino entediado com a pacatez da cidade Belga, indignado, quando o seu companheiro o tenta entusiasmar com a sua beleza, a fazer lembrar-me a minha própria pessoa quando alguém gaba as qualidades e vantagens do país de Angela Merkel – “vive-se melhor, ganha-se mais, é tão bonito…” – e eu, com a mesma expressão – e voz esganiçada – de horror de Farrell no filme, respondo: “O quê???? Viver na [porra] d`Alemanha? Nem morta, pá!

 

Nota: o filme está integralmente no YouTube dividido em 13 partes. A primeira, pode ser vista aqui.

 

Adenda: Está no Youtube em 12 partes (não 13) e entre a 11ª e 12ª falta o final. Não consegui encontrá-lo integralmente como o original (apenas musicado) e está aqui. E incompleto aqui.

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Também não exageremos

por Sofia Bragança Buchholz, em 11.11.08

Na sequência do lixo televisivo que engulo diariamente na Sic Mulher há um programa amoroso, apresentado por outro velhinho catita (às vezes, pergunto-me se este canal não se deveria chamar Sic Geriatria) intitulado não sei quê dos animais. É um hospital veterinário inglês onde diariamente acorrem os mais diversos casos: cãezinhos feridos, gatinhos estropiados, ovelhinhas doentes, e até papagaios com problemas psicológicos, todos passam por lá.

No outro dia houve um caso que me comoveu particularmente: uns lagostins abandonados, não se sabe porquê. Coitadinhos, aquilo foi um lufa-lufa para lhe arranjarem um lar de acolhimento! Eu não teria hesitado, eu teria ficado com eles. Eu teria tratado bem deles e acolhido-os de bom grado. Com muito salzinho e no meu estômago, claro.
 

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Let`s Talk [seriously] about sex

por Sofia Bragança Buchholz, em 09.11.08

 

 © Foto: ?
 
Tenho por hábito, depois de uma certa hora, aterrar em cima da cama e ficar a ver os programas que me impingem na Sic Mulher. Aquilo é como um folhear de “Holas” e “Caras”, uma massagem capilar no cabeleireiro, um banho de sol: descontrai, relaxa, deixa-nos o cérebro vazio das preocupações do dia.
Papo tudo, desde a Oprah à Tyra Ebanks, de uma tal de Janice Dickinson, histérica e malcriada que tem uma agência de modelos, até uma série com uma miúda que morreu e que tira almas em part-time.
No outro dia surpreendeu-me, contudo, um programa sobre sexo, uma espécie daquele que passou há tempos na TVI (“AB Sexo”), só que, em vez de uma bela e sensual Marta Crawford, com uma velhinha caquéctica.
Ao que parece a senhora chama-se Sue Johanson e é uma conhecida e conceituada enfermeira canadiana dedicada à educação sexual. O programa – Talk Sex with Sue Johanson – consiste em chamadas telefónicas por parte dos telespectadores, cujas dúvidas a dita senhora esclarece. Depois do seu sucesso no Canadá o programa transferiu-se para outros países, nomeadamente, para os Estados Unidos e é aclamado pelos americanos.
Aquilo chocou-me confesso. Chamem-me preconceituosa, conservadora, o que quiserem, sei lá, mas achei ridículo aquelas mãos sarapintadas de Melanose solar manusearem dildos e vaginas de silicone como se de agulhas de croché se tratassem. Pasmei ao ver aqueles lábios encarquilhados encenarem sucções eróticas e aconselharem as telespectadoras em linha – acompanhados pelo movimento de um maroto dedo indicador, chamativo – a dizerem aos seus parceiros para “virem cá” e a intitulá-los de “big guys”. Horrorizou-me vê-la pousar em cima da mesa um enorme saco e, qual Pai Natal, retirar de dentro dele carradas de brinquedos a que chamou maliciosamente de “hot stuff da Sue”. E principalmente impressionou-me a forma irresponsável como indicou como se tratavam certas doenças.
Não é que ache que o sexo esteja reservado a mais novos, não, nada disso, mas aquela personagem apenas descredibilizou ainda mais o programa. Tudo aquilo me soou a disparatado. A uma brincadeira ridícula.
Não é assim, seguramente, daquela forma leviana e superficial – a correr, como as chamadas a que tem de dar vazão – que se ensina sexualidade e se dá conselhos sobre uma coisa tão complexa - e delicada - que é a relação entre seres humanos.
 

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Simão em: Ena, chegou a parte literária da coisa!

por Sofia Bragança Buchholz, em 07.11.08

Personagens:
• Simão, 8 anos (3ª Ano do Ensino Básico)
• Eu

Cenário:
O Simão ia ter teste de Estudo do Meio. Para o ajudar a preparar-se para tal, tento inteirar-me da matéria:

Acção:
– O que é que vai sair na avaliação da amanhã, Simão?
E ele, logo, prontamente:
– O Aparelho Digestivo e o Sistema Escritor.


[Aqui para nós, não vejo a hora de ele aprender a o Aparelho Reprodutor!…]

 

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Destino de alívio

por Sofia Bragança Buchholz, em 11.10.08

Valença, _ _ de Agosto de 1976

Estávamos em 1976 e na fronteira obrigaram-na, como mandava a lei, a preencher o formulário alfandegário: um papelinho branco, burocrático, mesquinho, que a identificava a ela, aos filhos, ao marido, ao carro deles, ao seu destino e, se a memória não me falha, ao montante do seu dinheiro. Para trás tinham ficado os poucos quilómetros que separavam os dois países e as loooongas horas em filas de espera, sob o sol abrasador e sufocante de Agosto.
Os miúdos contavam os carros: primeiro os azuis, depois os vermelhos, depois os brancos… em jogos inventados para enganar o cansaço, a falta de espaço e o calor. Eram três, num banco traseiro de um Lancia Fulvia de dois lugares que nunca ouvira falar em cintos de segurança, muito menos em cadeirinhas especiais para crianças. Estóicos, suportavam a vontade de fazer xixi, o barulho do rádio e o - hoje, tão politicamente incorrecto - fumo da cigarrilha do pai. Esperava-os o sabor da recompensa, superior a qualquer esforço, suportável a qualquer sacrifício: o último álbum dos Rolling Stones para o mais velho, o vestidinho de favos ao xadrez para a do meio, e a boneca, invariavelmente, loira e de olhos azuis (como que a contrariar o moreno do made in spain da etiqueta) para a mais nova. Havia também os chocolates, as borrachas, os cadernos, as gambas a la plancha ao jantar a que, naquela altura, eles não davam valor, mas que hoje lhes sabem deliciosamente na memória. E os passeios na calle del Príncipe e na marina de Vigo, os churros com chocolate quente, as fantas e as coca-colas. Ah, as latas de coca-cola que raiva faziam aos amigos, quando regressavam!!!
Ela preencheu o formulário e no espaço reservado à sua data de nascimento hesitou. O polícia inquiriu, mal-encarado, e à falta de resposta pressionou, impaciente, apontando para o carro, numa ameaça tácita de revista. Os dois miúdos, no banco de trás, acenaram infantis no sorriso e na atitude, e a terceira, de pé, ao lado da mãe, respondeu: Vinte e três de Maio de mil novecentos e quarenta e um. O guarda carimbou mecânica e indiferentemente os papéis, e mãe e filha entraram no carro, apressadas.
No meio da ponte que separava os dois países, cantaram, como já era costume fazerem, divertidos, o hino nacional. E já do lado de Espanha, na paragem de alívio − fisiológico sim, e de consumo também − ela pediu à filha aquilo que, no seu receio e nervosismo, a fizera bloquear na resposta. A miúda meteu, desempoeiradamente, a mão entre os dois pares cuecas que trazia vestidos e com um sorriso atrevido entregou à mãe o dinheiro para depositar, a salvo, em Espanha.

© Sofia Bragança Buchholz, 2005.
 
[repost daqui]

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O artista era um bom artista. Não havia necessidade.

por Sofia Bragança Buchholz, em 11.10.08

O post do Rodrigo despertou-me o saudosismo. Pôs-me a rever vídeos antigos, a ouvir sons da infância, do tempo em que o Festival da Canção fazia parar o país, e que era quase a sua única forma de divulgação no estrangeiro. Dei comigo a ver a interpretação do tema – lindíssimo, por sinal – “Estrela da Tarde”, pelo Carlos do Carmo. É indiscutível o timbre de voz do cantor e a beleza do poema do Ary dos Santos. Mas bolas, sejamos realistas, com uma performance destas do poeta, como é que alguma vez poderíamos imaginar, sequer, ganhar algum concurso?!

 

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