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Sugestões de Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 20.12.08

Um Espinho de Marfim e outras histórias – Marina Colasanti

 

“Durante quarenta anos gerou filhos que, ampla e generosa, continuava a abrigar no ventre passado o tempo da gestação. Por que atirá-los no mundo se, mãe, a todos podia conter e alimentar?
Achando porém necessário dar-lhes boa educação, fez quatro vezes o serviço militar para atender às necessidades cívicas dos seus filhos homens, e completou oito cursos de corte e costura para garantir o futuro de suas filhas mulheres.
Já estava quase chegando à velhice, quando a doçura de netos começou a lhe parecer mais desejável do que tudo. Não resistindo, deitou-se enfim no centro da cama e, abertas as poderosas coxas, começou o esforço. Em vão suou lençóis e fronhas, em vão inchou as veias do pescoço. Passadas horas, passados dias em que sem descanso lutava para expelir, compreendeu: por amor e segurança seus filhos se recusavam a deixá-la. Nunca seria avó.
Então a tristeza abateu-se sobre ela. Emagreceram as pernas, emagreceram os braços. Só a barriga não emagreceu, vagando imensa pela casa. Mas a pele se fez cada vez mais fina, e em certas horas da manhã, quando a luz bate clara e penetrante sobre o ventre de opalina, já se podem ver os rapazes garbosos na ordem unida, e as moças que cosem infindáveis camisolas.”

 

Marina Colasanti in “Um Espinho de Marfim e Outras Histórias”; No Aconchego da Grande Mãe, pág. 109; Editora Figueirinhas.

 

Este é um dos muitos contos que integram este livro de contos de fadas para adultos.

Outro pode ainda ser lido aqui.

 

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Sugestões de Natal

por Sofia Bragança Buchholz, em 18.12.08

O Jardim de Cimento – Ian McEwan
 
É um belíssimo romance, com uma forte carga psicológica que consegue ao mesmo tempo ser inocente e cruel, ingénuo e chocante. É a história de quatro irmãos (de 17, 15, 13 e 6 anos) que ficam órfãos de pai e posteriormente de mãe. Com o pânico de serem separados e entregues a instituições, resolvem não comunicar a morte da mãe e enterrarem-na na cave, num baú, cobrindo-a com cimento. A partir daí ficam entregues a uma liberdade estranha e doentia, em que as regras, o tempo e o espaço são aqueles que eles conseguem definir (ou melhor, que acabam por não conseguir definir). É um livro perturbador e excitante, onde o sexo, a morte, a dor, a perda e os jogos solitários estão presentes ao virar de cada página.
 

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